<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xml:lang="pt-BR"><generator uri="https://jekyllrb.com/" version="4.4.1">Jekyll</generator><link href="https://oratioapp.com.br/feed.xml" rel="self" type="application/atom+xml" /><link href="https://oratioapp.com.br/" rel="alternate" type="text/html" hreflang="pt-BR" /><updated>2026-08-15T00:33:30-03:00</updated><id>https://oratioapp.com.br/feed.xml</id><title type="html">Oratio App Católico</title><subtitle>Portal e aplicativo católico gratuito para oração, Liturgia diária, Liturgia das Horas, Bíblia, Catecismo e formação espiritual.</subtitle><author><name>Equipe Oratio</name></author><entry><title type="html">A Terra de Santa Cruz e a Vocação Católica do Brasil</title><link href="https://oratioapp.com.br/blog/2025/09/a-terra-de-santa-cruz-e-a-vocacao-catolica-do-brasil/" rel="alternate" type="text/html" title="A Terra de Santa Cruz e a Vocação Católica do Brasil" /><published>2025-09-07T09:00:00-03:00</published><updated>2026-07-25T00:00:00-03:00</updated><id>https://oratioapp.com.br/blog/2025/09/a-terra-de-santa-cruz-e-a-vocacao-catolica-do-brasil</id><content type="html" xml:base="https://oratioapp.com.br/blog/2025/09/a-terra-de-santa-cruz-e-a-vocacao-catolica-do-brasil/"><![CDATA[<blockquote>
  <p><strong>Nota editorial:</strong> este texto é um ensaio de opinião pessoal do autor. Suas interpretações políticas e históricas não constituem posicionamento oficial da Igreja Católica.</p>
</blockquote>

<p>O Brasil comemora sua Independência em 7 de setembro. A data recorda um marco político decisivo, mas também pode provocar uma pergunta mais profunda: de que maneira a liberdade nacional deve relacionar-se com a verdade, a justiça e a vocação espiritual de um povo?</p>

<p>O país foi formado em um contexto profundamente marcado pelo cristianismo. Nos primeiros dias da presença portuguesa, a Cruz foi erguida nas praias, a Santa Missa foi celebrada e a terra recebeu nomes como Ilha de Vera Cruz e Terra de Santa Cruz. A Carta de Pero Vaz de Caminha expressava a convicção de que a evangelização dos habitantes daquela terra deveria ocupar lugar central na missão que se iniciava.</p>

<p>Essa origem não torna automaticamente santa toda a história brasileira, que também carrega pecados, violências, injustiças e contradições. Ela, porém, recorda que a fé católica participou da formação cultural, religiosa e institucional do país e deixou marcas que ainda podem ser reconhecidas na linguagem, nas festas, nas cidades, nas devoções populares e na vida de milhões de brasileiros.</p>

<h2 id="da-santa-cruz-ao-predomínio-dos-interesses-materiais">Da Santa Cruz ao predomínio dos interesses materiais</h2>

<p>Com o tempo, o nome Brasil, ligado ao pau-brasil, impôs-se ao nome Terra de Santa Cruz. Mais do que uma simples mudança de vocabulário, essa passagem pode ser lida simbolicamente como uma tensão permanente de nossa história: a disputa entre uma vocação orientada para Deus e a busca desordenada por riquezas, poder e vantagens particulares.</p>

<p>Não se deve imaginar que houve um passado perfeito, no qual todos viviam plenamente a fé. A história nunca foi tão simples. Ainda assim, o símbolo da Cruz recorda um critério pelo qual a vida nacional pode ser examinada: o valor da pessoa humana, o dever da justiça, a responsabilidade diante dos mais fracos e a submissão do poder político a uma ordem moral que ele não cria por conta própria.</p>

<p>Quando esses princípios são abandonados, a independência jurídica permanece, mas a sociedade pode tornar-se escrava da corrupção, do egoísmo, das paixões coletivas e de projetos ideológicos que tratam o homem como instrumento.</p>

<h2 id="monarquia-república-e-continuidade-histórica">Monarquia, República e continuidade histórica</h2>

<p>Na opinião deste autor, que se reconhece como monarquista, a Proclamação da República em 1889 rompeu de maneira brusca com uma continuidade histórica que poderia ter sido preservada e aperfeiçoada. A Monarquia brasileira possuía limites e contradições, mas conservava uma ligação institucional e cultural mais explícita com a tradição católica.</p>

<p>A figura da Princesa Isabel permanece especialmente significativa. Sua fé, sua devoção e sua atuação na abolição da escravidão permitem imaginar o tipo de testemunho público que ela poderia ter oferecido caso tivesse assumido o trono. Isso não significa transformar a Monarquia em solução automática para todos os problemas nacionais, mas reconhecer que a mudança de regime não produziu por si mesma uma sociedade mais virtuosa, estável ou justa.</p>

<p>A Independência de 1822 também deve ser observada em seu contexto, no qual conviviam interesses dinásticos, projetos liberais, influências maçônicas e o desejo de evitar a fragmentação territorial. O nascimento político do país não foi uma cena simples de unidade, mas um processo complexo, marcado por continuidades e rupturas.</p>

<h2 id="o-perigo-das-ideologias-sem-deus">O perigo das ideologias sem Deus</h2>

<p>Ao longo dos séculos XIX, XX e XXI, diferentes ideologias procuraram explicar e reorganizar a sociedade brasileira. Liberalismo, positivismo, socialismo, comunismo, nacionalismos e correntes culturais mais recentes apresentaram diagnósticos distintos e, algumas vezes, contribuíram para debates legítimos. Nenhuma delas, porém, pode substituir a verdade integral sobre o homem revelada por Cristo.</p>

<p>Toda proposta política se torna perigosa quando promete uma salvação puramente terrena, reduz a pessoa à economia, à classe, ao Estado, à raça, ao consumo ou ao desejo individual. A fé católica lembra que nenhum sistema político é absoluto e que toda autoridade deve respeitar a dignidade humana, a família, a liberdade religiosa, a justiça e o bem comum.</p>

<p>O Brasil não será renovado apenas por mudanças eleitorais, reformas administrativas ou novos planos econômicos. Essas medidas podem ser necessárias, mas permanecem insuficientes quando a vida moral está desordenada. Um povo que normaliza a corrupção, despreza a verdade e transforma o interesse particular em regra coletiva enfraquece qualquer instituição que procure construir.</p>

<h2 id="voltar-à-cruz">Voltar à Cruz</h2>

<p>Dizer que o Brasil precisa voltar à Cruz não significa impor a fé pela força nem negar a legítima liberdade de consciência. Significa pedir aos católicos que vivam publicamente aquilo que professam, formem famílias fiéis, eduquem seus filhos, exerçam suas profissões com honestidade, defendam a dignidade de cada pessoa e participem da sociedade sem separar a fé da vida concreta.</p>

<p>A grandeza de uma nação não se mede apenas por seu território, por sua economia ou por seus recursos naturais. Ela também depende das virtudes de seu povo, da qualidade de suas instituições e da maneira como trata os mais vulneráveis.</p>

<p>Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, conduz os fiéis sempre ao seu Filho. Sua palavra nas bodas de Caná permanece um programa para a vida cristã: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). A renovação católica do país começa nessa obediência, vivida nas casas, nas paróquias, no trabalho e no serviço ao próximo.</p>

<p>A Independência não precisa ser uma comemoração vazia. Ela pode tornar-se ocasião para reconhecer responsabilidades, agradecer os bens recebidos e renovar o compromisso de construir uma pátria mais justa. Para os católicos, isso exige manter os olhos em Cristo e recordar que a verdadeira liberdade não consiste em fazer qualquer coisa, mas em poder escolher e realizar o bem.</p>

<p>Assim, o nome Terra de Santa Cruz não permanece apenas como recordação histórica. Ele se converte em chamado: que o Brasil não abandone as raízes cristãs que marcaram sua formação e que os católicos testemunhem, com verdade e caridade, a esperança que receberam.</p>]]></content><author><name>Paulo Ricardo</name></author><category term="Opinião" /><category term="História" /><category term="Sociedade" /><category term="Fé e política" /><category term="Independência do Brasil" /><category term="Monarquia" /><category term="Nossa Senhora Aparecida" /><category term="Princesa Isabel" /><category term="Proclamação da República" /><category term="Terra de Santa Cruz" /><category term="Vocação católica" /><summary type="html"><![CDATA[Ensaio de opinião sobre a identidade cristã presente na formação histórica do Brasil e sobre o chamado dos católicos a testemunhar a fé na vida nacional.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://oratioapp.com.br/assets/images/posts/a-terra-de-santa-cruz-e-a-vocacao-catolica-do-brasil.jpg" /><media:content medium="image" url="https://oratioapp.com.br/assets/images/posts/a-terra-de-santa-cruz-e-a-vocacao-catolica-do-brasil.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry><entry><title type="html">Quaresma de São Miguel Arcanjo: origem, sentido e como vivê-la</title><link href="https://oratioapp.com.br/blog/2025/08/quaresma-de-sao-miguel-arcanjo-origem-sentido-e-como-vive-la/" rel="alternate" type="text/html" title="Quaresma de São Miguel Arcanjo: origem, sentido e como vivê-la" /><published>2025-08-13T09:00:00-03:00</published><updated>2026-07-25T00:00:00-03:00</updated><id>https://oratioapp.com.br/blog/2025/08/quaresma-de-sao-miguel-arcanjo-origem-sentido-e-como-vive-la</id><content type="html" xml:base="https://oratioapp.com.br/blog/2025/08/quaresma-de-sao-miguel-arcanjo-origem-sentido-e-como-vive-la/"><![CDATA[<p>A Quaresma de São Miguel Arcanjo é um período de oração, penitência e renovação espiritual inspirado pela devoção de São Francisco de Assis. Tradicionalmente, ela começa em 15 de agosto, na Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, e termina em 29 de setembro, festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.</p>

<p>O intervalo possui quarenta dias de penitência quando os domingos não são contados, seguindo uma lógica semelhante à da Quaresma que prepara a Páscoa. Trata-se de uma devoção privada, não de um tempo litúrgico oficial da Igreja, por isso sua prática é livre e deve ser vivida de forma prudente, equilibrada e compatível com os deveres próprios de cada fiel.</p>

<h2 id="origem-da-devoção">Origem da devoção</h2>

<p>São Francisco de Assis cultivava profunda veneração pelos anjos e, de modo especial, por São Miguel Arcanjo. As fontes franciscanas recordam que ele se retirava em determinados períodos para dedicar-se mais intensamente ao jejum, à solidão e à oração.</p>

<p>Uma dessas práticas ficou conhecida como Quaresma de São Miguel. Francisco retirava-se depois da festa da Assunção de Nossa Senhora e permanecia em recolhimento até a festa do Arcanjo. Em 1224, durante esse período no Monte Alverne, na Itália, recebeu os estigmas, sinais da Paixão de Cristo impressos em seu corpo.</p>

<p>Esse acontecimento marcou profundamente a espiritualidade franciscana. A Quaresma de São Miguel passou a ser compreendida não como uma busca por experiências extraordinárias, mas como um caminho de conformação a Cristo por meio da oração, da penitência e da entrega amorosa a Deus.</p>

<h2 id="o-significado-de-são-miguel-arcanjo">O significado de São Miguel Arcanjo</h2>

<p>O nome Miguel significa “Quem como Deus?”. Nas Sagradas Escrituras, ele aparece como defensor do povo de Deus e combatente contra as forças do mal. É mencionado no livro de Daniel, na Carta de São Judas e no Apocalipse, onde lidera os anjos na batalha contra o dragão.</p>

<p>A imagem tradicional de São Miguel, representado como guerreiro que derrota o dragão, expressa uma verdade espiritual: somente Deus é Senhor, e o cristão deve resistir a tudo aquilo que o afasta de sua vontade. A devoção ao Arcanjo não substitui a confiança em Cristo, mas recorda que os anjos servem ao plano de Deus e auxiliam a Igreja em sua peregrinação.</p>

<p>Dedicar quarenta dias à oração sob a intercessão de São Miguel significa assumir com maior seriedade o combate contra o pecado, as tentações e os hábitos que enfraquecem a vida espiritual.</p>

<h2 id="como-viver-a-quaresma-de-são-miguel">Como viver a Quaresma de São Miguel</h2>

<p>Como devoção privada, ela não possui uma única forma obrigatória. Algumas práticas são comuns e podem ser adaptadas com prudência à realidade de cada pessoa.</p>

<h3 id="oração-diária">Oração diária</h3>

<p>O fiel pode rezar diariamente a oração a São Miguel Arcanjo composta pelo Papa Leão XIII, a ladainha de São Miguel ou outras preces aprovadas. O mais importante é manter um horário possível e constante, evitando transformar a oração em uma obrigação mecânica.</p>

<h3 id="penitência-pessoal">Penitência pessoal</h3>

<p>É possível escolher uma renúncia concreta, como reduzir algum conforto, moderar o uso de entretenimento ou praticar uma forma legítima de jejum. A penitência deve ajudar na conversão e nunca colocar a saúde em risco. Crianças, adolescentes, gestantes, pessoas enfermas ou com necessidades alimentares específicas devem evitar práticas rigorosas e podem escolher obras de caridade, silêncio, serviço e domínio da língua.</p>

<h3 id="espaço-de-oração">Espaço de oração</h3>

<p>Um pequeno espaço com uma imagem de São Miguel, uma Bíblia e outros sinais da fé pode favorecer o recolhimento. A vela é opcional e deve ser usada somente em local seguro, sob supervisão adequada e longe de materiais inflamáveis.</p>

<h3 id="leitura-espiritual">Leitura espiritual</h3>

<p>A meditação diária da Palavra de Deus ajuda a evitar uma devoção baseada apenas em fórmulas. Textos sobre os anjos, a vida de São Francisco e o combate espiritual cristão também podem acompanhar esse período.</p>

<h3 id="confissão-eucaristia-e-caridade">Confissão, Eucaristia e caridade</h3>

<p>A oração devocional encontra seu lugar correto quando conduz aos sacramentos e à prática do amor ao próximo. Procurar a Confissão, participar da Santa Missa e realizar obras de misericórdia são modos concretos de permitir que a devoção produza frutos.</p>

<h2 id="um-tempo-de-transformação">Um tempo de transformação</h2>

<p>A Quaresma de São Miguel é um convite para reorganizar a vida diante de Deus. Sua finalidade não está em acumular práticas, buscar sinais extraordinários ou tratar a oração como uma fórmula automática para alcançar pedidos, mas em abandonar o pecado, fortalecer a fé e crescer na caridade.</p>

<p>São Francisco recebeu os estigmas durante uma dessas quaresmas, mas sua santidade não consistiu apenas nesse acontecimento. Ela se manifestou na humildade, na pobreza, na obediência, no amor à Igreja e no desejo de seguir os passos de Cristo.</p>

<p>Vividos com fé e equilíbrio, esses quarenta dias podem ajudar o fiel a identificar fraquezas, retomar a oração e perseverar com maior firmeza no caminho cristão. Que São Miguel Arcanjo interceda por nós e nos ajude a permanecer fiéis ao Senhor.</p>

<p><strong>São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate!</strong></p>

<h2 id="fontes-e-referências">Fontes e referências</h2>

<ul>
  <li>Sagrada Escritura: Daniel 10,13; Daniel 12,1; Judas 9; Apocalipse 12,7-9.</li>
  <li>Ordem dos Frades Menores, materiais do oitavo centenário dos estigmas de São Francisco, recebidos no Monte Alverne em 1224.</li>
  <li>Comissão Franciscana de Tradição Intelectual, estudos sobre os períodos de quaresma vividos por São Francisco e a Quaresma de São Miguel.</li>
  <li>Catecismo da Igreja Católica, números 328 a 336, sobre a existência e a missão dos anjos.</li>
</ul>]]></content><author><name>Paulo Ricardo</name></author><category term="Formação" /><category term="História" /><category term="Devoções" /><category term="São Miguel Arcanjo" /><category term="Quaresma de São Miguel" /><category term="São Francisco de Assis" /><category term="Penitência" /><category term="Combate espiritual" /><category term="Oração" /><summary type="html"><![CDATA[Conheça a origem franciscana da Quaresma de São Miguel Arcanjo e veja como viver esse período de oração, penitência, caridade e combate espiritual.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://oratioapp.com.br/assets/images/posts/quaresma-de-sao-miguel-arcanjo-origem-sentido-e-como-vive-la.jpg" /><media:content medium="image" url="https://oratioapp.com.br/assets/images/posts/quaresma-de-sao-miguel-arcanjo-origem-sentido-e-como-vive-la.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry><entry><title type="html">Como surgiu a Festa de Corpus Christi?</title><link href="https://oratioapp.com.br/blog/2025/06/como-surgiu-a-festa-de-corpus-christi/" rel="alternate" type="text/html" title="Como surgiu a Festa de Corpus Christi?" /><published>2025-06-19T09:00:00-03:00</published><updated>2026-07-25T00:00:00-03:00</updated><id>https://oratioapp.com.br/blog/2025/06/como-surgiu-a-festa-de-corpus-christi</id><content type="html" xml:base="https://oratioapp.com.br/blog/2025/06/como-surgiu-a-festa-de-corpus-christi/"><![CDATA[<p>A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, conhecida como Corpus Christi, é celebrada na quinta-feira seguinte à Solenidade da Santíssima Trindade. Em muitos lugares, ela reúne comunidades inteiras, conduz o Santíssimo Sacramento pelas ruas e transforma o espaço público em uma grande manifestação de fé. Sua origem, porém, remonta a um ambiente de oração silenciosa, estudo teológico e intensa devoção à presença real de Jesus na Eucaristia.</p>

<p>A história de Corpus Christi é, acima de tudo, a história da fé da Igreja no mistério eucarístico. O que hoje se celebra publicamente amadureceu durante décadas na vida de pessoas que reconheceram a necessidade de uma festa especificamente dedicada à adoração, ao louvor e à reparação diante do Santíssimo Sacramento.</p>

<h2 id="a-visão-de-uma-religiosa-e-uma-ausência-no-calendário">A visão de uma religiosa e uma ausência no calendário</h2>

<p>No século XIII, a região de Liège, na atual Bélgica, era um importante centro de espiritualidade eucarística. Foi nesse ambiente que viveu Santa Juliana de Cornillon, também conhecida como Santa Juliana de Liège. Órfã ainda criança, ela foi confiada às religiosas agostinianas de Mont-Cornillon e, mais tarde, tornou-se religiosa da mesma comunidade.</p>

<p>Juliana cultivava uma profunda devoção à Eucaristia. Por volta dos 16 anos, começou a ter uma visão recorrente durante a oração: via uma lua cheia e luminosa atravessada por uma faixa escura. Com o tempo, compreendeu que a lua simbolizava a vida litúrgica da Igreja e que a faixa representava a ausência de uma celebração dedicada de modo particular ao Corpo e ao Sangue de Cristo.</p>

<p>Ela não divulgou imediatamente essa experiência. Guardou-a em silêncio por cerca de vinte anos e, somente depois, partilhou-a com pessoas de confiança, entre elas a beata Eva de Liège, Isabel de Mont-Cornillon e membros do clero. Também encontrou apoio em Jacques Pantaléon, que havia exercido seu ministério na região e mais tarde se tornaria o Papa Urbano IV.</p>

<h2 id="da-celebração-local-ao-reconhecimento-da-igreja">Da celebração local ao reconhecimento da Igreja</h2>

<p>A proposta recebeu o apoio de Roberto de Thourotte, bispo de Liège. Em 1246, ele introduziu a festa em sua diocese, dando início a uma celebração que logo começou a ser acolhida em outros lugares. A iniciativa não nasceu de um impulso isolado, mas de um processo no qual a experiência espiritual de Juliana foi examinada, amadurecida e submetida ao discernimento dos pastores da Igreja.</p>

<p>A vida de Juliana, entretanto, foi marcada por provações. Ela enfrentou oposição, deixou o convento de Mont-Cornillon e passou os últimos anos acolhida em diferentes mosteiros de religiosas cistercienses. Morreu em 1258, sem presenciar a plena difusão da festa pela Igreja universal.</p>

<p>Sua contribuição, contudo, já havia produzido frutos. A devoção que ela ajudou a promover encontrou no futuro Papa Urbano IV alguém capaz de reconhecê-la e transformá-la em uma celebração para toda a Igreja.</p>

<h2 id="bolsena-orvieto-e-a-decisão-de-urbano-iv">Bolsena, Orvieto e a decisão de Urbano IV</h2>

<p>Em 1263, segundo a tradição conservada em Orvieto, ocorreu em Bolsena um milagre eucarístico durante a Missa celebrada por um sacerdote que atravessava dúvidas sobre a presença real de Cristo na Eucaristia. O corporal associado ao acontecimento foi levado a Orvieto, onde se encontrava o Papa Urbano IV.</p>

<p>No ano seguinte, em 11 de agosto de 1264, o Papa promulgou a bula <em>Transiturus de hoc mundo</em>, pela qual instituiu a solenidade de Corpus Christi para a Igreja universal. O documento expressava o desejo de que o mistério eucarístico, já celebrado diariamente na Missa, recebesse também uma comemoração anual especialmente solene.</p>

<p>Urbano IV confiou a São Tomás de Aquino a composição dos textos litúrgicos da nova festa. Desse trabalho nasceram hinos e orações que atravessaram os séculos, entre eles o <em>Pange Lingua</em>, do qual faz parte o <em>Tantum Ergo</em>, a sequência <em>Lauda Sion</em>, o <em>Sacris Solemniis</em>, que contém o <em>Panis Angelicus</em>, e o <em>Verbum Supernum</em>, do qual procede o <em>O Salutaris Hostia</em>.</p>

<p>A morte de Urbano IV, ocorrida pouco tempo depois, dificultou a aplicação imediata da bula em todas as regiões. A celebração continuou a se espalhar e, em 1317, foi reafirmada para a Igreja universal durante o pontificado de João XXII.</p>

<h2 id="a-procissão-os-tapetes-e-a-fé-que-caminha">A procissão, os tapetes e a fé que caminha</h2>

<p>Com o passar do tempo, a solenidade ganhou uma forte dimensão pública. A procissão eucarística tornou-se uma das suas expressões mais conhecidas, pois nela os fiéis acompanham o Santíssimo Sacramento pelas ruas, professando que Cristo permanece verdadeiramente presente na Eucaristia.</p>

<p>No Brasil e em Portugal, desenvolveu-se também o costume de ornamentar o caminho da procissão com tapetes feitos de serragem, flores, folhas, areia, pó de café e outros materiais. Esses desenhos apresentam símbolos eucarísticos, cenas bíblicas e elementos da tradição cristã, transformando o trabalho comunitário em uma forma de homenagem ao Senhor.</p>

<p>Os tapetes não são o centro da solenidade, mas ajudam a expressar visivelmente a reverência da comunidade. O essencial é a presença de Cristo, adorado e acompanhado por seu povo, que leva para as ruas a fé celebrada no altar.</p>

<h2 id="muito-mais-do-que-uma-tradição">Muito mais do que uma tradição</h2>

<p>Celebrar Corpus Christi não significa apenas recordar uma visão, um milagre ou um acontecimento medieval. A solenidade proclama que Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente na Eucaristia e que esse mistério ocupa o centro da vida da Igreja.</p>

<p>A Missa não é uma representação simbólica distante, mas a atualização sacramental do único Sacrifício de Cristo. Na comunhão, o fiel recebe o próprio Senhor sob as espécies do pão e do vinho, sendo chamado a responder com fé, adoração, reverência e caridade.</p>

<p>O que Santa Juliana recebeu em silêncio, a Igreja passou a celebrar publicamente. Aquilo que começou em uma pequena comunidade de Liège tornou-se uma das maiores manifestações eucarísticas do mundo católico, lembrando a cada geração que Deus permanece próximo e se oferece como alimento para a vida eterna.</p>

<p><strong>Salve Maria Santíssima!</strong></p>

<h2 id="fontes-e-referências">Fontes e referências</h2>

<ul>
  <li>Bento XVI, <a href="https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20101117.html">Audiência Geral de 17 de novembro de 2010: Santa Juliana de Cornillon</a>.</li>
  <li>Papa Urbano IV, bula <em>Transiturus de hoc mundo</em>, de 11 de agosto de 1264.</li>
  <li>São Paulo VI, encíclica <em>Mysterium Fidei</em>, especialmente o número 63.</li>
  <li>Catecismo da Igreja Católica, números 1373 a 1381.</li>
  <li>Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, número 282.</li>
</ul>]]></content><author><name>Paulo Ricardo</name></author><category term="Festas Litúrgicas" /><category term="Formação" /><category term="História" /><category term="Corpus Christi" /><category term="Eucaristia" /><category term="Santa Juliana de Cornillon" /><category term="Papa Urbano IV" /><category term="Milagre de Bolsena" /><category term="São Tomás de Aquino" /><summary type="html"><![CDATA[A história de uma solenidade que nasceu da devoção eucarística em Liège, recebeu impulso decisivo de Santa Juliana de Cornillon e foi instituída para toda a Igreja pelo Papa Urbano IV.]]></summary><media:thumbnail xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" url="https://oratioapp.com.br/assets/images/posts/como-surgiu-a-festa-de-corpus-christi.jpg" /><media:content medium="image" url="https://oratioapp.com.br/assets/images/posts/como-surgiu-a-festa-de-corpus-christi.jpg" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/" /></entry></feed>