Deus autem, qui dives est in misericórdia, propter nimiam caritatem suam, qua dilexit nos, et cum essemus mortui peccatis, convivificavit nos Christo – “Deus que é rico em misericórdia, por causa da extrema caridade com que nos amou, também quando mortos estávamos pelos pecados, nos convivificou em Cristo” (Ef 2, 4)
I
Considera que o pecado é a morte da alma; visto que esse inimigo de Deus nos priva da graça divina, que é a vida da alma. Assim nós, os pobres pecadores, já estávamos todos mortos por nossa culpa e todos condenados ao inferno. Deus, porém, por causa do imenso amor que tem às nossas almas, quis restituir-nos à vida. Que fez? Enviou à terra o seu Filho unigênito a fim de morrer e com a sua morte recuperar-nos a vida. — É com razão que o Apóstolo chama esta obra de amor: nimiam caritatem, excesso de amor. Com efeito, nunca o homem pudera nutrir esperança de receber a vida de um modo tão amoroso, se Deus não houvera excogitado esse meio de remi-lo.
Estavam mortos todos os homens, e não havia para eles remédio. Mas o Filho de Deus, pelas entranhas de sua misericórdia, desceu do céu a restituir-nos à vida. É exatamente por isso que o Apóstolo chama Jesus Cristo vita nostra, nossa vida. Eis que o nosso Redentor, já encarnado e feito menino, nos diz: Veni ut vitam habeant, et abundantius habeant (1) — “Eu vim para eles terem vida, e para a terem em maior abundância”. Jesus veio e escolheu a morte para si, a fim de nos dar a vida. — É, pois, justo que vivamos unicamente para um Deus que se dignou de morrer por nós. É justo que o único senhor de nosso coração seja Jesus Cristo, porquanto deu o seu sangue e a sua vida para o ganhar. Ó meu Deus, quem será tão ingrato e tão desgraçado que, sabendo pela fé que um Deus morreu para lhe grangear o amor, se recuse a amá-Lo, e renunciando à amizade divina, queira fazer-se, por sua livre vontade, escravo do inferno?
II
Ó meu Jesus, se Vós não tivésseis aceitado e padecido a morte por mim, teria eu ficado morto no meu pecado sem esperança de me salvar e de poder amar-Vos. Mesmo depois que com a vossa morte me obtivestes a vida, eu muitas vezes tenho tornado a perdê-la voluntariamente pelos meus pecados. Morrestes para Vos assenhorardes do meu coração, e eu, rebelando-me contra Vós, escravizei-o ao demônio. Tenho-Vos desrespeitado e dito que não Vos queria para meu Senhor. Tudo isso é verdade, mas é também verdade que não quereis a morte do pecador, mas que se converta e viva, e Vós morrestes a fim de nos dardes a vida.
Amado Redentor meu, pesa-me de Vos ter ofendido; perdoai-me pelos merecimentos de vossa Paixão. Dai-me a vossa graça; dai-me aquela vida que me adquiristes com a vossa morte, e de hoje em diante reinai como supremo senhor em meu coração. Não, não quero mais que seu senhor seja o demônio, que não é meu Deus, que não me ama e nada tem padecido por mim. Em tempos passados foi ele não o verdadeiro senhor de minha alma, senão o injusto possuidor. Vós só, Jesus meu, sois o meu verdadeiro Senhor, Vós que me haveis criado e remido com o vosso sangue; Vós só me haveis amado e amado tanto. É justo que eu seja unicamente vosso no tempo de vida que me resta. Dizei-me o que quereis que eu faça, pois que eu quero fazê-lo. Castigai-me como quiserdes: aceito tudo. Poupai-me somente o castigo de ter de viver sem o vosso amor; fazei com que Vos ame, e depois disponde de mim segundo a vossa vontade.
— Maria Santíssima, meu refúgio e minha consolação, recomendai-me a vosso Filho; a sua morte e a vossa intercessão são a minha única esperança.
Referências
(1) Jo 10, 10