Da verdadeira sabedoria — meditação de Santo Afonso Maria de Ligório
Quaresma

Meditação 20 de 46

Da verdadeira sabedoria

Terceira Semana da Quaresma • Segunda-feira

Oh, que bela ciência, a de saber amar a Deus e salvar a alma. É esta a ciência mais necessária de todos, porquanto, se soubéssemos tudo e não nos soubéssemos salvar, nada nos aproveitaria e seríamos eternamente infelizes; ao passo que seremos eternamente…

Por Santo Afonso Maria de Ligório

Texto 100%

Et dedit illi scientiam sanctorum – “E deu-lhe a ciência dos santos” (Sb 10, 10)

I

Compreendamos bem que os verdadeiros sábios são aqueles que sabem adquirir a graça de Deus e o paraíso. Que bela ciência a de amar a Deus e salvar a alma! O livro onde se ensina a salvar a alma é de todos o mais necessário. Se soubéssemos tudo e não nos soubéssemos salvar, nada nos aproveitaria e seríamos para sempre infelizes. Ao contrário, seremos eternamente felizes se amarmos a Deus, ainda que não mais fôssemos completamente ignorantes. Beatus qui te novit, etsi alia nescit — “Bem-aventurado o que Vos conhece, ó Deus, embora ignore todas as outras coisas!” exclamava Santo Agostinho.

Certo dia Frei Gil disse a São Boaventura:
– Feliz de ti, padre Boaventura, que sabes tantas coisas, e eu pobre ignorante nada sei; tu podes ser muito mais santo do que eu.
– Escuta — respondeu-lhe o Santo, — se uma velhinha ignorante tiver amar a Deus mais do que eu, ela será mais santa do que eu.

Surgunt indocti, et rapiunt coelum — “Os ignorantes levantam-se e conquistam o céu”, disse Santo Agostinho. Quantos rústicos que não sabem ler, mas sabem amar a Deus, se salvam, e quantos verdades segundo o mundo se condenam! Aqueles, e não estes, são os verdadeiros sábios. Que grandes sabedorias foram um São Pascal, um São Feliz, capuchinho, um São João de Deus, apesar de ignorarem as ciências humanas! Que grandes riquezas, tantos mártires, tantas virgens, que renunciaram a ilustres alianças, indo morrer por amor de Jesus Cristo! — Numa palavra, os que renunciaram aos bens terrestres para se consagrarem a Deus, são chamados homens desenganados. Portanto, aqueles que abandonam a Deus pelos bens do mundo, devem ser chamados homens enganados.

Irmão meu, em quais das duas falanges você quer achar? Para que faça boa escolha, aconselhe-te São João Crisóstomo que visita os cemitérios, que são as escolas mais excelentes para aprender a vaidade dos bens terrestres e a ciência dos santos. Proficiscamur ad sepulchra — “Vamos aos túmulos”. Dizei-me: sabes ali distinguir quem foi rei, nobre ou literato?

Eu por mim — acrescenta o santo — não vejo senão um monte de ossos, de vermes e de podridão.

II

Irmão meu, se você quer ser sábio, não basta conhecer a importância do seu fim: é preciso também empregar os meios para o alcançar. Todos se quereriam salvar e ser santos; mas como não procurar os meios, não se santificam e perdem-se. É preciso evitar as graças, frequentar os sacramentos, fazer oração, e mais do que tudo, gravar no coração as máximas do Evangelho, como serem: Quid prodest homini, si universum mundum lucretur? (1) “Que aproveita ao homem ganha o mundo inteiro? É preciso perder tudo, até a vida, para salvar a alma” (2). Para seguir Jesus Cristo, deve-se recusar ao amor próprio a satisfação que deseja (3). A nossa salvação consiste em fazer a vontade de Deus (4). São estas as máximas e outras semelhantes, que devem frequentemente ser objeto de nossa meditação, se nós também quisermos ser verdadeiras verdades e salvar-nos.

Ó Pai de misericórdia, lançai um olhar sobre a minha miséria e tende piedade de mim. Iluminai-me e fazei-me conhecer o meu desvairamento passado, para o deplorar, e a tua infinita espera, para o amar. Ó meu Jesus: Ne tradas bestiis animas confitentes tibi (5) — “Não entregueis às feras as almas que Vos louvam”. Derramaste o seu sangue para me salvar; não permitais que me torne ainda escravo do demônio, como já o fui no passado. Arrependo-me de Vos ter deixado, o supremo Bem. Amaldiçôo todos os instantes em que, por minha própria vontade, consenti no pecado, e um-me estreitamente à vossa santa vontade, que só deseja a minha felicidade.

Ó Pai Eterno, pelos merecimentos de Jesus Cristo, dá-me a força para executar tudo o que é do teu agrado. Deixai-me antes de morrer do que me opor à vossa santa vontade. Ajude-me com a sua graça a depositar unicamente em Vós todo o meu amor, e a desligar-me de todos os afetos que não se referem a Vós. Amo-Vos, ó Deus de minha alma, amo-Vos sobre todas as coisas e de Vós espero todos os bens, o perdão, a perseverança em seu amor e o paraíso para Vos amar eternamente.

— Ó Maria, pedi estas graças para mim. Vosso Filho não te recusa nada. Esperança minha, em vós confio.

Referências

(1) Mt 16, 26

(2) Jo 12, 25

(3) Mt 16, 24

(4) Sl 29, 6

(5) Sl 73, 19

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