Misericordia eius a progenie in progenies timentibus eum – “A sua misericórdia se estende de geração a geração, sobre os que o temem” (Lc 1, 50)
É a mesma piedade e compaixão que O faz ainda agora dizer: Quare moriemini, domus Israel? Revertimini et vivite (1) – “Porque morrereis, ó casa de Israel? Voltai e vivei”. Ó homens, parece dizer, meus pobres filhos, porque vos quereis condenar, fugindo de mim? Não vedes que afastando-vos de mim correis para a morte eterna? Não vos quero ver condenados; não desanimeis, se quereis voltar a mim, voltai e recuperareis a vida: Revertimini et vivite. – A mesma misericórdia O faz ainda dizer que ele é o Pai amoroso que, posto que desprezado pelo filho, não sabe repulsá-lo quando volta arrependido, mas o abraça com ternura e se esquece de todas as injúrias recebidas: Peccatorum tuorum non recordabor (2) – “Não me lembrarei de teus pecados”.
Não é assim que soem fazer os homens. Estes, ainda que perdoem, guardam sempre a lembrança da ofensa recebida e sentem desejos de vingança; e se não se vingam, porque são tementes de Deus, ao menos têm grande repugnância de conversar e tratar com aqueles que os ofenderam. – ah, meu Jesus, Vós perdoais aos pecadores arrependidos e não recusais dar-Vos a eles todo inteiro nesta terra pela santa comunhão e no céu pela luz da glória, sem que mostreis a menor repugnância em conservar unida convosco, por toda a eternidade, à alma que Vos ofendeu. Onde então achar um coração tão amável e misericordioso como o vosso, ó meu amado Salvador?
II
Ó Coração misericordioso de meu Jesus, tende compaixão de mim. Meu dulcíssimo Jesus, tende compaixão de mim. Eu Vo-lo digo agora e dai-me, ó Jesus, a graça de sempre Vos repetir esta súplica: Ó meu dulcíssimo Jesus, tende compaixão de mim. Antes de Vos ofender, ó meu Redentor, não merecia, por certo, nenhuma das muitas graças que me fizestes. Vós me criastes, me comunicastes tantas luzes, sem merecimento da minha parte. Depois, porém, que pequei, não somente não sou digno de favores, mas mereço ser abandonado de Vós e precipitado no inferno. A vossa misericórdia é que Vos fez esperar-me e conservar-me a vida quando me achava na vossa desgraça. A vossa misericórdia é que me esclareceu e me convidou à penitência; ela me deu a dor dos pecados e o desejo de Vos amar
e pela vossa misericórdia nutro a confiança de estar em vossa graça.
Ó meu Jesus, não cesseis de exercer misericórdia comigo. † “Para Vos mostrar a minha gratidão e para reparar as minhas infidelidades, Vos dou o meu coração e me consagro inteiramente a Vós, ó meu amável Jesus e com vosso auxílio proponho nunca mais pecar.” (3) – É esta a misericórdia que Vos peço; iluminai-me e fortalecei-me para não ser mais ingrato para convosco.
Meu amor, não pretendo que torneis a perdoar-me se eu tornar a virar-Vos as costas; isto seria um presunção que havia de impedir que usásseis de misericórdia para comigo. Que misericórdia poderia esperar ainda de Vós, se viesse novamente a desprezar a vossa amizade, separando-me de Vós? Ó meu Jesus, amo-Vos e quero sempre amar-Vos. É esta a misericórdia que Vos imploro e espero: Não permitais, não permitais que me separe de Vós. – Ó minha Mãe, Maria, rogo-vos também: não permitais que ainda me separe de meu Deus.
Referências
(1) Ez 18, 31-32
(2) Is 43, 25
(3) Indulg. de 100 dias, quando se reza diante da imagem do Sagrado Coração