Apresentação
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Entre os muitos livros que a tradição espiritual católica legou aos fiéis ao longo dos séculos, poucos conservaram com tanta força e simplicidade o caráter de verdadeiro manual de vida interior quanto O Combate Espiritual, de Lorenzo Scupoli. Suas páginas partem de uma realidade que todo cristão cedo ou tarde é chamado a reconhecer: a vida espiritual não consiste apenas em desejar o bem, mas em travar, com o auxílio da graça de Deus, um combate perseverante contra o pecado, as paixões desordenadas, as tentações e, sobretudo, contra aquela confiança excessiva em nós mesmos que tantas vezes nos afasta da verdadeira perfeição.
O título da obra exprime com precisão aquilo que o leitor encontrará nestes capítulos. O combate de que trata Scupoli não é dirigido contra outras pessoas, nem se confunde com uma sucessão de exercícios exteriores realizados por mera disciplina. Seu campo de batalha é principalmente a própria alma. É nela que a vontade deve aprender a submeter-se a Deus, que o entendimento precisa libertar-se dos enganos, que as paixões devem ser ordenadas e que a confiança em si mesmo deve ceder lugar a uma confiança cada vez maior na Divina Providência.
Desde as primeiras páginas, o autor adverte que a perfeição cristã não pode ser reduzida a práticas exteriores, por mais santas e necessárias que elas sejam. Orações, penitências, obras de piedade, silêncio, mortificações e outras práticas espirituais possuem grande valor quando ordenadas para Deus, mas não constituem por si mesmas a santidade. O verdadeiro progresso espiritual exige transformação interior, conhecimento da própria fraqueza, domínio da vontade, crescimento nas virtudes e, acima de tudo, amor sincero a Deus.
É justamente dessa convicção que nascem os quatro grandes fundamentos apresentados no início da obra: a desconfiança de nós mesmos, a confiança em Deus, o correto exercício das faculdades da alma e a oração. Esses princípios reaparecem continuamente ao longo dos capítulos, aplicados às mais diversas circunstâncias da vida cristã. Scupoli ensina a combater as paixões, resistir às tentações, suportar as contrariedades, governar os sentidos e a própria fala, examinar a consciência, aproximar-se dignamente dos Sacramentos e conservar a paz interior mesmo depois das quedas.
Há nas páginas de O Combate Espiritual uma espiritualidade profundamente realista. O autor conhece a fragilidade humana e não escreve como se o caminho da santidade fosse percorrido sem tropeços. Ao contrário, muitas de suas recomendações destinam-se precisamente àquele que caiu, desanimou, descobriu em si uma fraqueza que julgava já vencida ou percebeu quanto ainda está distante da perfeição. Nessas situações, Scupoli não recomenda o desalento, mas um retorno humilde e confiante a Deus. A própria experiência da miséria pessoal pode tornar-se ocasião de maior humildade, desde que a alma não se feche em si mesma, mas volte os olhos para a misericórdia divina.
Essa combinação entre profundo conhecimento da fraqueza humana e firme confiança na graça constitui uma das maiores riquezas da obra. O cristão é chamado a combater seriamente, empregando sua vontade e procurando adquirir hábitos virtuosos, mas sem cair na ilusão de que pode vencer sozinho. Quanto mais aprende a reconhecer a própria insuficiência, mais deve aprender a confiar naquele de quem procede todo verdadeiro auxílio.
A presença de Nosso Senhor Jesus Cristo percorre naturalmente toda essa doutrina espiritual. Sua Paixão torna-se escola de paciência, humildade, obediência e amor; Sua Cruz, medida pela qual o cristão aprende a compreender os próprios sofrimentos; Sua graça, fundamento de toda vitória espiritual. Da mesma maneira, a Santíssima Virgem ocupa lugar especial na vida de oração apresentada por Scupoli, sendo invocada como poderosa intercessora daqueles que desejam avançar no serviço de seu Divino Filho.
A obra conduz progressivamente o leitor desde os fundamentos da vida espiritual até as últimas batalhas da existência terrena. Seus capítulos finais contemplam a perseverança até a morte e os combates que podem acompanhar os derradeiros momentos do cristão. Dessa forma, o livro apresenta a vida espiritual como uma luta que não conhece verdadeira aposentadoria: enquanto permanecemos nesta vida, permanece também a necessidade de vigilância, oração, humildade e confiança.
Esta nova edição em língua portuguesa nasceu do desejo de tornar essa obra novamente acessível aos leitores brasileiros em formato digital. A tradução foi realizada por Paulo Ricardo Alves, com o auxílio de inteligência artificial, a partir de uma versão em língua inglesa, especialmente para o Oratio. O propósito desta publicação não é oferecer uma edição crítica ou acadêmica, mas colocar nas mãos dos fiéis um texto destinado à leitura, ao estudo e, principalmente, à edificação da vida espiritual.
Convém, por isso, que este livro seja lido sem pressa. Muitos de seus capítulos são curtos, mas encerram conselhos que somente revelam toda a sua utilidade quando aplicados concretamente à vida. Em vez de avançar rapidamente de página em página, pode ser mais proveitoso deter-se em determinado capítulo, examiná-lo à luz da própria consciência e perguntar de que maneira seus ensinamentos podem ser praticados nas circunstâncias presentes.
Que a leitura de O Combate Espiritual não permaneça, portanto, apenas no entendimento, mas alcance a vontade e se transforme em propósito de vida. Em última análise, o combate descrito nestas páginas não tem outro fim senão aquele que deve orientar toda existência cristã: vencer tudo aquilo que nos separa de Deus, crescer no amor e na virtude e perseverar fielmente até alcançar a união definitiva com Ele.