Capítulo XXIII

Outros usos proveitosos dos sentidos em diferentes circunstâncias

26 de 71 seções · capítulo 23 de 66

Já mostramos como a mente pode elevar-se das coisas da terra às do Céu, a fim de contemplar os diversos mistérios de Cristo. Prosseguirei indicando outros temas de meditação capazes de alimentar a devoção de pessoas com disposições diferentes. Isso será útil não somente aos principiantes, mas também àqueles que possuem maior instrução e estão mais adiantados na vida espiritual, pois nem todos seguem o mesmo método em sua busca da perfeição nem são igualmente capazes de profunda contemplação.

Não penses que a variedade de métodos criará dificuldades. Deixa-te guiar pela discrição, recebe o conselho de um diretor prudente e obedece às suas orientações com grande humildade. Isso se aplica não somente ao que considero aqui, mas também ao que direi mais adiante.

Uma coisa atraente e estimada pelo mundo deve ser considerada mais insignificante do que a poeira sob teus pés. Ela fica infinitamente abaixo do que o Céu promete, para onde deves aspirar com todo o coração, desprezando os interesses insensatos do mundo.

Quando olhares para o sol, pensa em tua alma. Adornada pela graça santificante, ela é incomparavelmente mais resplandecente e bela do que todo o firmamento; privada dessa graça, porém, é mais negra do que o próprio inferno. Eleva, portanto, o coração ao Céu quando contemplares o firmamento e assegura teu direito a uma morada eterna, conservando intacta essa graça.

Quando ouvires o canto dos pássaros, pensa nas harmonias que entoam no Céu o eterno hino de louvor a Deus e suplica ao Senhor que te torne digno de unir-te ao coro celeste para cantar Seus louvores por toda a eternidade.

Não permitas que o encanto e a beleza das criaturas enganem teu juízo. A serpente frequentemente se oculta sob aparências fascinantes, procurando envenenar e destruir a própria vida de tua alma. Tua indignação então dirá: “Afasta-te, serpente maldita; é inútil que te escondas para causar minha ruína!” Em seguida, volta-te para Deus e dize: “Bendito sois Vós, ó Deus! Descobristes meu inimigo; ele procurava destruir-me, e Vós me salvastes!”

Busca refúgio nas Chagas de teu Salvador Crucificado. Inteiramente recolhido nelas, considera os sofrimentos imensos que a própria Divindade quis suportar para libertar-te do pecado e inspirar-te aversão aos prazeres sensuais.

Eis outro meio de avaliar a atração da beleza criada: considera as mudanças que a morte produzirá naquilo que agora parece tão encantador.

Cada passo dado por uma pessoa recorda a aproximação da morte.

O voo veloz de um pássaro ou a corrente impetuosa de um rio são lentos quando comparados à rapidez da vida humana.

Uma tempestade que tudo destrói e um trovão que faz tremer a terra recordam o dia do Juízo. Eles nos põem de joelhos em adoração diante de Deus e nos fazem suplicar-Lhe a graça e o tempo necessários para nos prepararmos a comparecer perante Sua infinita Majestade.

Se desejares aproveitar os inúmeros acontecimentos desta vida, poderás praticar o método seguinte. Os sofrimentos causados pelo calor, pelo frio ou por qualquer outro incômodo, assim como o peso da aflição e da tristeza, podem ser considerados decretos eternos da Providência, que envia o sofrimento para teu próprio bem e o proporciona às tuas forças. Desse modo, tornar-se-ão evidentes o amor e a ternura paternais de Deus para contigo, manifestados nas ocasiões que Ele te concede de servi-Lo da maneira que mais Lhe agrada.

Agora que te encontras em condições de agradar-Lhe mais do que nunca, fala da plenitude de teu coração: “É a Vontade de Deus que se cumpre em mim. Desde toda a eternidade, o amor de Deus escolheu-me para suportar hoje este sofrimento. Seja Ele bendito para sempre!”

A firme convicção de que todo bom pensamento procede de Deus te levará a agradecer ao Pai das luzes sempre que tais pensamentos ocuparem tua mente.

Em todo livro religioso que leres, reconhece os impulsos e a inspiração do Espírito Santo. Na cruz, contempla o estandarte de Jesus Cristo, teu Capitão. Compreende que, se O abandonares por um só instante, teus inimigos mais cruéis se apoderarão de ti; mas, se O seguires, serás recebido no Reino dos Céus, adornado com as insígnias do vencedor.

Quando vires uma imagem da Santíssima Virgem, oferece teu coração a essa Mãe de Misericórdia. Alegra-te porque ela sempre observou perfeitamente a Vontade de Deus, deu à luz o Salvador do mundo e O alimentou com seu leite. Agradece-lhe também os favores e auxílios que jamais nos recusa em nossos combates espirituais.

As imagens dos Santos te recordarão aqueles valorosos soldados de Cristo que, combatendo corajosamente até a morte, assinalaram o caminho que deves seguir para um dia participares de sua glória.

Todas as vezes que o sino tocar para o Ângelus, faze uma breve reflexão sobre as palavras que precedem cada Ave-Maria.

A primeira consideração seja uma ação de graças a Deus pela mensagem enviada do Céu, com a qual teve início a obra de nossa Redenção.

A segunda reflexão seja de alegria com Maria pela sublime dignidade à qual foi elevada em razão de sua incomparável e profundíssima humildade.

O terceiro toque do sino recordará o Verbo feito Homem. Então reconheceremos a honra devida à Sua Santíssima Mãe e ao Arcanjo São Gabriel. Convém inclinar respeitosamente a cabeça a cada toque, mas especialmente ao terceiro.

Esses atos podem ser praticados a qualquer hora. Certos exercícios relativos aos mistérios da Paixão de nosso Salvador, mais apropriados a determinados momentos do dia, como a manhã, o meio-dia e a noite, serão tratados mais adiante. Devemos, contudo, recordar também com frequência as dores que nossa Santíssima Mãe suportou naquele tempo, pois somente a ingratidão poderia levar-nos a esquecê-las.

À noite, considera a profunda aflição que a casta e delicada Virgem sentiu diante do suor de sangue e da prisão de seu Filho Jesus no Horto, bem como todas as angústias que lhe ocuparam a alma durante a noite inteira.

Pela manhã, acompanha-a nas dores que sofreu ao ver seu amado Filho arrastado diante de Pilatos e Herodes, condenado à morte e carregado com uma pesada Cruz.

Ao meio-dia, contempla a espada de dor que atravessou a alma dessa Mãe aflita quando viu o Filho crucificado e agonizante, e Seu lado transpassado por uma lança cruel.

Essas reflexões sobre as dores da Santíssima Virgem podem ser feitas desde a noite de sexta-feira até o meio-dia de sábado. As meditações anteriores podem ser realizadas em qualquer ocasião; as circunstâncias exteriores ou determinados acontecimentos sugerirão outros pensamentos adequados à tua devoção particular.

Para concluir, ofereço um breve resumo do melhor modo de ordenar teus sentidos. Nunca permitas que o amor ou o ódio entrem em teu coração por motivos puramente humanos; deixa, antes, que a Vontade de Deus dirija tuas inclinações para abraçar ou rejeitar os objetos apresentados à mente.

Deves notar cuidadosamente que, ao recomendar essa grande variedade de práticas para a ordenação dos sentidos, está longe de minha intenção que empregues nelas todo o teu tempo. Muito ao contrário, o recolhimento e a união com Deus devem constituir tua disposição habitual. Tua principal atividade será o combate interior contra as inclinações viciosas e a prática de atos das virtudes contrárias. Esses métodos foram apresentados para que os utilizes nas ocasiões oportunas.

Não se deve imaginar que a multiplicidade dos exercícios produzirá verdadeiro progresso na devoção. Embora sejam bons em si mesmos, seu uso impróprio pode servir apenas para confundir a mente, aumentar o amor-próprio e a instabilidade e, desse modo, abrir caminho às ilusões do demônio.