Capítulo LV
Da preparação para a Comunhão e do papel da Eucaristia em despertar em nós o amor de Deus
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Se nosso motivo para receber a Sagrada Comunhão for o desejo de crescer no amor de Deus, devemos recordar o amor que Ele tem por nós. A preparação consiste em contemplar atentamente esse soberano Senhor de poder e majestade sem limites, que, não satisfeito de nos criar à Sua imagem e semelhança nem de imolar por nós Seu Filho único, deixou-nos esse mesmo Filho no Sacramento da Eucaristia para ser nosso alimento e sustento em todas as necessidades. Considera atentamente a grandeza e a singularidade desse amor da maneira seguinte.
Quanto à duração, reconhecemos que o amor de Deus por nós é eterno e incessante, pois, assim como Ele é eterno em Sua Divindade, também é eterno em Seu amor. Antes que existisse o tempo, Deus determinou dar Seu Filho ao gênero humano dessa maneira admirável. Deixa, portanto, que estas palavras ressoem com alegria em teu coração: “No abismo da eternidade, minha pequenez foi tão amada pelo Deus Altíssimo que Ele pensou em mim e, com amor inefável, quis dar-me Seu Filho como alimento e sustento!”
Nossas paixões mais fortes pelas coisas terrenas conhecem certos limites que não podem ultrapassar; o amor de Deus por nós, porém, não tem limites. A vinda de Seu Filho, igual a Ele em majestade e perfeição, foi o testemunho desse amor imenso. Assim, o dom é igual ao amor e o amor ao dom; e ambos são infinitos, além das fronteiras do entendimento humano.
Ao amar-nos, Deus não foi constrangido por poder ou necessidade alguma, mas derramou sobre nós inúmeros benefícios em razão da grandeza de Seu amor divino.
Tampouco nossos méritos ou boas obras anteriores nos tornaram dignos desse dom extraordinário. Se Deus nos amou sem medida e Se entregou com tamanha generosidade, isso deve ser atribuído à imensidade da caridade divina.
O amor de Deus por nós não está manchado pelo interesse próprio presente nos afetos humanos. O que representa para Ele toda a grandeza humana, se é a fonte de toda felicidade e glória? Como poderíamos acrescentar glória à própria Glória? Todas as vantagens, portanto, estão do lado do homem.
Meditando sobre essa verdade, diga cada um em seu interior: “Quem poderia imaginar, ó Senhor, que um Deus de grandeza tão infinita dirigisse Seus afetos a uma criatura tão abjeta e insignificante como eu? Qual poderia ser vosso desígnio, ó Rei da Glória? O que podeis esperar de mim, que não sou senão pó? Vejo claramente, meu Deus, à luz de vossa ardente caridade, que ao mesmo tempo me ilumina o entendimento e me abrasa de amor, que vosso desígnio está inteiramente livre de interesse próprio. Ao conceder-me tão bondosamente este Sacramento, desejais transformar-me em Vós, para que eu viva em Vós e Vós em mim. Uma união tão íntima há de refazer meu coração e converter este vaso de barro em instrumento delicado, afinado para as coisas divinas.”
Cheios então de alegria e assombro diante das manifestações do amor divino que Cristo nos concedeu, e conscientes de que Seu único propósito é transformar nosso coração, afastando-o das coisas da terra e elevando-o às do Céu, ofereçamos um sacrifício e consagremos a vontade, a memória e o entendimento à única tarefa de agradar-Lhe mediante a alegre aceitação de Sua santa Vontade.
Depois disso, reconhecendo nossa incapacidade de nos dispormos corretamente, sem o auxílio de Sua graça, para receber a Eucaristia, esforcemo-nos sinceramente por alcançar essa graça mediante jaculatórias como estas:
“Ó Alimento Celeste, quando estarei unido a Vós para ser alegremente consumido no fogo do amor divino? Ó Caridade Divina, quando viverei em Vós, por Vós e somente para Vós? Ó Maná Celeste, sumo Bem e alegria de meu coração, quando, detestando todo outro alimento, buscarei unicamente a Vós? Ó Vida de eterna alegria, quando habitarei somente em Vós? Ó meu Senhor amoroso e onipotente, libertai meu coração da tirania das paixões e dos apegos viciosos; adornai-o com vossas virtudes celestes e, por uma suave violência, obrigai-o a alegrar-se em amar-Vos e agradar-Vos. Então, ó Senhor, abrirei meu coração e Vos convidarei a entrar; então vireis, meu único Tesouro, transformar meu coração por vossa Divina presença.”
Esses são os sentimentos ternos e afetuosos que devemos formar na noite anterior e na manhã em que receberemos a Sagrada Comunhão.
Quando se aproximar o momento, devemos considerar atentamente Quem estamos prestes a receber. Nosso Hóspede será o Filho do Deus vivo, a Majestade augusta diante da qual os Céus e as Potestades celestes tremem de santo temor. Nosso Hóspede será o Santo dos Santos, Espelho sem mancha, a própria Pureza, diante da qual tudo é impuro por comparação. É a Divindade feita homem, considerada o opróbrio dos homens, que por amor a nós quis ser coberta de escarros, golpeada, injuriada e crucificada. Estás verdadeiramente prestes a receber o próprio Deus, em cujas mãos se encontra o destino do universo.
Considera, de outro lado, tua inteira insignificância e tua vil condição pecadora, que te reduziu abaixo dos animais irracionais e te tornou digno de ser joguete e escravo dos demônios. Considera como correspondeste aos infinitos favores recebidos do Salvador: insultaste o Redentor e calcaste aos pés Seu Sangue Precioso, manifestando a mais insolente ingratidão.
Mas nem mesmo a ingratidão humana pode vencer a caridade divina; a inconstância caprichosa não pode medir-se com o Amor imutável. Ainda assim, o Senhor bondoso te chama ao Banquete Divino e, em vez de rejeitar-te por causa de tua evidente indignidade, ordena-te que venhas, sob pena de morte. Os braços do Pai misericordioso estão sempre abertos para te receber, ainda que sejas leproso, coxo, cego, dissoluto ou possesso dos demônios. Ele exige de ti apenas estas poucas disposições:
A. Sentir sincera dor por havê-Lo ofendido tão gravemente.
B. Odiar com vigor inextinguível toda espécie de pecado.
C. Consagrar-te à alegre aceitação de Sua Vontade Divina, qualquer que ela seja.
D. Ter firme confiança de que Ele perdoará teus pecados, purificará tua alma de toda mancha e te defenderá de todos os inimigos.
Encorajado por esse amor inefável do Senhor por ti e por todos os pecadores penitentes, aproxima-te da Mesa Sagrada com um temor prudente, temperado pela esperança e pelo amor, dizendo:
“Depois de tantas ofensas graves, não sou digno de receber-Vos, pois ainda não satisfiz plenamente vossa Justiça. Não, meu Deus, sou indigno de Vós, manchado como estou por um apego desordenado às criaturas e pela resistência em servir-Vos inteiramente, com todo o coração e todas as forças.
“Ó meu Senhor onipotente, recordai vossa bondade e vossa promessa; pela alquimia divina do amor e da fé, fazei de meu coração uma morada digna de vosso Divino Filho.”
Depois da Comunhão, procura permanecer em profundo recolhimento, fechando o coração às numerosas e pequenas invasões das distrações mundanas. Recebe o Hóspede Divino com sentimentos semelhantes aos expressos na oração seguinte:
“Ó soberano Senhor do Céu, o que Vos trouxe das alturas celestes às profundezas dos corações terrenos?” Sua resposta será simplesmente: “O amor.”
E deves responder: “Ó Amor eterno, o que pedis de mim?” Ele tornará a responder: “Nada além de amor. Não quero em teu interior outro fogo senão a caridade, cujas chamas ardentes vencerão os fogos impuros das paixões e te tornarão agradável aos Meus olhos.
“Há muito desejo que sejas inteiramente Meu e Eu inteiramente teu. Há muito desejo também a entrega de tua vontade, sempre solícita por uma liberdade frívola e pelas vaidades mundanas, pois somente quando tua vontade estiver afinada com a Minha poderá realizar-se o primeiro desejo.
“Sabe, então, que desejo que morras para ti mesmo a fim de viveres para Mim; quero que Me entregues teu coração para torná-lo semelhante ao Meu, que se rompeu no Calvário por amor ao gênero humano. Sabes Quem Eu sou e, contudo, sabes que, em certo sentido, fiz de ti Meu igual por um excesso de amor. Quando Me entrego inteiramente a ti, nada peço em troca senão a ti mesmo. Sê Meu e ficarei satisfeito. Não queiras, não penses, não compreendas nem contemples coisa alguma fora de Mim e de Minha Vontade. Deixa que teu nada se perca nas profundezas de Minha infinidade e ali encontra tua felicidade, como Eu encontro repouso em ti.”
Por fim, oferece ao Pai eterno Seu Filho Unigênito:
Primeiro, em ação de graças pelos favores inexprimivelmente grandes que Ele te concedeu ao dar-te Seu Filho.
Depois, em súplica pelas coisas de que necessitas e por aqueles em favor dos quais tens obrigação de rezar; recorda também em teus pedidos as Almas do Purgatório.
Faze toda essa oferenda em memória e em união com a oblação realizada por Cristo no monte Calvário, quando, sangrando na Cruz, ofereceu-Se a Seu Pai eterno.
Da mesma forma, podes oferecer por essa intenção o Sacrifício da Missa onde quer que seja celebrado naquele dia em todo o mundo cristão.