Capítulo LXIV
Do assalto do desespero e de seu remédio
67 de 71 seções · capítulo 64 de 66
O segundo assalto pelo qual o perverso procura destruir-nos é o terror que pretende infundir em nossa mente pela recordação dos pecados passados, esperando assim precipitar-nos no desespero.
Nesse perigo, apega-te à regra infalível de que a lembrança de teus pecados é efeito da graça e muito salutar quando inspira em teu coração sentimentos de humildade, compunção e confiança na Misericórdia de Deus. Se, porém, essa recordação provoca irritação e abatimento e te deixa sem coragem, em razão da aparente força dos argumentos apresentados para convencer-te de que estás irremediavelmente perdido, tem por certo que ela foi sugerida pelo demônio. Em semelhantes circunstâncias, humilha-te ainda mais e deposita maior confiança em Deus; assim destruirás o estratagema do demônio, voltarás contra ele suas próprias armas e darás maior glória a Deus.
É verdade que deves sentir verdadeira contrição por haver ofendido tão soberana Bondade todas as vezes que recordares tuas faltas passadas; mas, todas as vezes que pedires perdão, deves também ter firme confiança na infinita misericórdia de Jesus Cristo.
Direi ainda mais: mesmo que o próprio Deus parecesse dizer em teu coração que não pertences ao Seu rebanho, continua a depositar n’Ele tua confiança. Dize-Lhe antes, com toda a humildade: “Tendes boas razões, ó Senhor, para condenar-me por meus pecados, mas eu tenho razão ainda maior para esperar o perdão de vossa misericórdia. Tende piedade, portanto, de um humilde pecador, condenado pela própria malícia, mas redimido por vosso Sangue. Entrego-me inteiramente em vossas mãos, ó meu Redentor; todas as minhas esperanças estão em Vós, pois confio que, em vossa infinita compaixão, me salvareis para a glória de vosso Nome. Fazei de mim o que quiserdes, porque somente Vós sois meu Senhor. Ainda que me destruísseis, meu Senhor, continuaria sempre a esperar em Vós.”