Capítulo III
Da confiança em Deus
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Embora a desconfiança de si mesmo seja absolutamente necessária no combate espiritual, como acabamos de demonstrar, se nela apenas nos apoiarmos, em pouco tempo seremos postos em fuga, despojados e subjugados pelo inimigo. Para que não fujamos do campo de batalha nem permaneçamos indefesos e vencidos nas mãos de nossos adversários, devemos acrescentar-lhe uma perfeita confiança em Deus e esperar somente d’Ele o socorro e a vitória. Assim como nós, que nada somos, nada podemos esperar de nós mesmos senão quedas e, por isso, devemos desconfiar inteiramente de nossas forças, também podemos esperar com segurança de nosso Senhor a vitória completa em cada combate. Para obter Seu auxílio, armemo-nos, portanto, de uma viva confiança n’Ele, a qual também pode ser adquirida por quatro meios.
Primeiro, pedi-la com grande humildade.
Segundo, contemplar, com fé ardente, o imenso poder e a infinita sabedoria do Ser Supremo. Nada Lhe é difícil; Sua bondade não conhece limites, e Seu amor por aqueles que O servem está sempre pronto a lhes proporcionar tudo quanto é necessário para a vida espiritual e para que obtenham uma vitória completa sobre si mesmos.
Tudo o que Ele exige é que recorram a Ele com inteira confiança. Poderia haver algo mais razoável? Durante trinta e três anos ou mais, o amável Pastor procurou a ovelha perdida por caminhos eriçados de espinhos, com tantos sofrimentos que essa busca Lhe custou até a última gota de Seu Sangue Sagrado. Quando esse Pastor dedicado vê enfim a ovelha extraviada regressar a Ele, desejosa de ser conduzida dali em diante somente por Ele e animada de uma intenção sincera, embora talvez fraca, de obedecer-Lhe, seria possível que não a contemplasse com compaixão, não escutasse seus clamores e não a levasse sobre os ombros de volta ao redil? Sem dúvida, muito Se compraz em vê-la novamente unida ao rebanho e convida os Anjos a se alegrarem com Ele nessa ocasião.
Se Ele procura com tanta diligência a dracma do Evangelho, figura do pecador, e nada deixa por fazer para encontrá-la, poderia rejeitar aqueles que, como ovelhas desejosas de rever seu Pastor, regressam ao aprisco?
Terceiro, outro meio de adquirir essa confiança salutar é recordar frequentemente aquilo que as Sagradas Escrituras, testemunhas da verdade, nos asseguram em mil passagens diferentes: ninguém que deposite em Deus a sua confiança será vencido.
Quarto, o último meio para adquirir simultaneamente a desconfiança de si mesmo e a confiança em Deus consiste em, antes de empreender qualquer boa ação ou enfrentar alguma falta, contemplar, de um lado, nossa própria fraqueza e, de outro, o infinito poder, a sabedoria e a bondade de Deus. Pesando aquilo que tememos de nós mesmos e aquilo que esperamos de Deus, enfrentaremos corajosamente as maiores dificuldades e as provas mais severas. Unindo essas armas à oração, como veremos mais adiante, seremos capazes de executar os maiores desígnios e alcançar vitórias decisivas.
Se, porém, negligenciarmos esse método, embora nos lisonjeemos de agir por um princípio de confiança em Deus, seremos ordinariamente enganados. A presunção é tão natural ao homem que, sem que ele o perceba, insinua-se na confiança que imagina ter em Deus e na desconfiança que julga ter de si mesmo. Por conseguinte, para destruir toda presunção e santificar cada ação, bem como as duas virtudes contrárias a esse vício, a consideração de nossa própria fraqueza deve preceder a consideração do Poder Divino, e ambas devem preceder todos os nossos empreendimentos.