Capítulo XXX
Dos enganos daqueles que se julgam no caminho da perfeição
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O fracasso do inimigo em seus dois primeiros ataques não o impedirá de tentar novamente causar tua ruína. Ele quer que permaneças inconsciente de teus vícios e paixões reais, enquanto enche tua imaginação com visões de uma perfeição quimérica que sabe que jamais alcançarás.
Por causa desse engano sutil, sofremos quedas frequentes e perigosas sem dedicar muita atenção aos meios de combatê-las. A soberba secreta se apodera desses desejos fantasiosos, confunde o sonho com a realidade e nos faz repousar em ideias sublimes sobre nossa própria santidade. Assim, no mesmo momento em que a menor contradição ou afronta nos perturba, entretêmo-nos com sonhos grandiosos de que estamos prontos a suportar por amor de Deus os maiores tormentos ou as próprias penas do Purgatório.
Nosso engano consiste na tendência da natureza sensível a comparar-se ousadamente com aquelas almas valorosas que suportam as maiores dores com paciência incansável. Para evitar semelhante armadilha, devemos combater os inimigos presentes no mundo real, e não obter vitórias sem valor num mundo de fantasias criado por nós mesmos. Então veremos se nossas resoluções são covardes ou corajosas, imaginárias ou verdadeiras, e avançaremos para a perfeição seguindo os passos dos Santos.
Não precisamos preocupar-nos com os inimigos que raramente nos atacam, a menos que tenhamos motivo para esperar sua investida; nesse caso, devemos fortificar-nos com a resolução de um soldado disposto a vencer.
Não confundamos, porém, resoluções com vitórias, ainda que tenhamos feito progressos consideráveis nos atos de virtude. A verdadeira humildade deve acompanhar-nos, mantendo sempre presente a memória de nossa fraqueza e mandando-nos depositar a confiança somente em Deus. Supliquemos-Lhe que seja nossa força na batalha, nosso escudo no perigo e nossa proteção contra a presunção e a confiança nas próprias capacidades.
Esse é o caminho que conduz à grandeza e à perfeição. Nele podemos encontrar muitas dificuldades para nossa natureza frágil, a fim de sermos por elas humilhados e conservarmos o pequeno mérito que nossas boas obras já alcançaram.