Capítulo XXIV

Como governar a própria fala

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Devemos vigiar cuidadosamente nossa fala por causa da inclinação que temos a discorrer sobre tudo quanto atrai os sentidos. Essa tendência se enraíza em certa soberba: pensamos conhecer muitas coisas e, apegados às próprias ideias, não hesitamos em comunicá-las aos outros, imaginando que toda a reunião deve prestar-nos atenção.

Não seria fácil enumerar todas as más consequências que nascem de uma fala sem domínio.

Em geral, podemos dizer que ela ocasiona grande perda de tempo; é sinal certo de ignorância e superficialidade; costuma envolver detrações e mentiras; esfria o fervor da devoção; fortalece as paixões desordenadas; e estabelece o hábito de conversas levianas e ociosas.

Para corrigir esse defeito, sugiro o seguinte método. Não fales em excesso, nem com aqueles que não te escutam de boa vontade, para que não os aborreças, nem com os que gostam de ouvir-te, para que não sejas conduzido a assuntos impróprios.

O tom de voz alto e autoritário não agrada aos ouvidos e apenas manifesta uma ignorância presunçosa.

Ninguém deve falar de si mesmo, de suas realizações ou de seus parentes, a menos que seja obrigado a fazê-lo; e, mesmo então, trate desses assuntos com a maior brevidade e modéstia possíveis. Se encontrares alguém que fale somente de si, procura uma boa razão para desculpá-lo, mas não o imites, ainda que tudo quanto ele diga só te ofereça ocasião para te humilhares e acusares a ti mesmo.

Fala de boa vontade sobre Deus e Sua imensa caridade para conosco. Entretanto, para não te expressares de maneira incorreta, prefere ouvir as palavras dos outros sobre esse assunto e guardá-las em teu coração.

Quando as conversas mundanas chegarem a teus ouvidos, não permitas que alcancem teu coração. Se for necessário escutá-las, compreendê-las e comentá-las, eleva o coração ao Céu. Ali reina teu Deus, e de lá essa Majestade Divina Se digna olhar para ti, apesar de tua indignidade. Depois de decidires o que dizer, elimina ainda alguma coisa, porque ao fim sempre descobrirás que falaste em excesso.

O silêncio possui valor incontestável no combate espiritual, e sua observância é garantia de vitória. Geralmente o acompanham a desconfiança de si mesmo, a confiança em Deus, um desejo mais intenso de oração e maior facilidade para praticar a virtude.

Para despertar em ti o amor ao silêncio, considera as grandes vantagens que ele oferece e os inúmeros males que nascem de uma loquacidade sem freio. A fim de te habituares a falar pouco, exercita-te em conter a palavra mesmo quando te seria permitido falar, a menos que o silêncio possa causar prejuízo a ti ou aos outros.

Evita as conversas sem proveito. A companhia de Deus, de Seus Santos e dos Anjos deve ser preferida à dos homens.

Se conservares realmente presente em todo momento a guerra que empreendeste, mal encontrarás tempo para respirar e muito menos para desperdiçar tuas energias em conversas tolas e vazias.