Capítulo VII

Do uso correto de nossas faculdades: o entendimento deve, antes de tudo, libertar-se da ignorância e da curiosidade

10 de 71 seções · capítulo 7 de 66

Se entrarmos no combate espiritual sem outras armas além da desconfiança de nós mesmos e da confiança em Deus, não somente deixaremos de alcançar a vitória sobre nossas paixões, mas devemos esperar cair frequentemente em erros ainda maiores. É necessário, portanto, empregar corretamente as faculdades do corpo e da alma, terceiro meio que apresentamos como indispensável para alcançar a perfeição.

Comecemos por ordenar o entendimento e a vontade. O entendimento deve libertar-se de dois grandes defeitos que frequentemente o afligem. O primeiro é a ignorância, que o impede de alcançar a verdade, objeto próprio de suas investigações. O exercício torna-o límpido e luminoso, a fim de que possa discernir claramente como purificar a alma de todos os apegos desordenados e adorná-la com as virtudes necessárias. Os meios para consegui-lo são os seguintes.

O primeiro meio é a oração, pela qual se pede a luz do Espírito Santo, que jamais rejeita aqueles que procuram sinceramente a Deus, encontram alegria em obedecer à Sua lei e, em todas as decisões, submetem o próprio juízo ao de seus superiores.

O segundo é a aplicação perseverante ao exame sério e diligente de cada objeto, para distinguir o bem do mal. O juízo assim formado não deve conformar-se às aparências exteriores, ao testemunho dos sentidos ou às normas de um mundo corrompido, mas ao juízo do Espírito Santo.

Então veremos claramente que tudo quanto o mundo busca com tanto ardor e afeição não passa de vaidade e ilusão; que a ambição e o prazer são sonhos que, uma vez desfeitos, deixam após si tristeza e remorso; que a ignomínia pode ser ocasião de glória e os sofrimentos, fonte de alegria; e que nada é mais nobre nem mais próximo da natureza divina do que perdoar aqueles que nos ofendem e retribuir o mal com o bem.

Veremos com clareza que é maior desprezar o mundo do que tê-lo sob nosso domínio; que é infinitamente preferível submeter-se ao mais humilde dos homens por amor de Deus a dar ordens a reis e príncipes; que o humilde conhecimento de nós mesmos supera as ciências mais profundas; enfim, que merece maior louvor aquele que domina sua paixão nas ocasiões mais insignificantes do que aquele que conquista as cidades mais fortificadas, derrota exércitos inteiros, realiza milagres ou até ressuscita os mortos.