Capítulo XLIV

Da oração

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Já demonstramos que a desconfiança de nós mesmos, a confiança em Deus e o emprego correto das faculdades da alma são armas indispensáveis para alcançar a vitória no combate espiritual. Há, contudo, uma arma de importância ainda maior: a oração, pois por meio dela se obtêm não somente as virtudes acima mencionadas, mas tudo quanto é necessário para nossa salvação. A oração é o canal de toda graça divina; por ela, Deus Se deixa, por assim dizer, obrigar a conceder-nos a força do Céu e a destruir, por meio de nossas frágeis mãos, os mais ferozes inimigos. Para recebermos da oração todo o seu fruto, devemos observar o método seguinte.

  1. Devemos desejar sinceramente servir a Deus com ardente fervor e da maneira que mais Lhe agrada. Esse desejo se acenderá em nosso coração se considerarmos atentamente três coisas. A primeira é que Deus Todo-Poderoso merece nossa homenagem e nosso serviço em razão da excelência de Seu Ser soberano, de Sua bondade, beleza, sabedoria e poder, bem como de Sua perfeição inefável e infinita. A segunda é que Deus, no Céu, Se fez homem na terra e consagrou uma vida de trinta e três anos à obra de nossa salvação. Dignou-Se tratar nossas feridas com as próprias mãos e curá-las não com óleo e vinho, mas com Seu Sangue Precioso e Seu Corpo Imaculado, dilacerado e desfigurado por cruéis açoites, espinhos e cravos. A terceira é o reconhecimento de nossa obrigação de observar Sua lei e cumprir cada dever, pois esse é o único caminho pelo qual podemos esperar triunfar sobre o demônio, tornar-nos senhores de nós mesmos e filhos de Deus.

  2. Devemos ter fé viva e ardente e firme confiança de que Deus não recusará o auxílio necessário para O servirmos fielmente e realizarmos nossa salvação. Uma alma reanimada por essa santa confiança é semelhante a um vaso sagrado no qual a Misericórdia Divina derrama os tesouros de Sua graça; e, quanto maior o vaso, tanto mais abundantes serão as bênçãos celestes recebidas pela oração. Como poderia Deus, cujo poder não conhece limites e cuja bondade é incapaz de enganar, recusar Seus dons àqueles que Ele mesmo encorajou a pedir e a cuja perseverança e fé prometeu as bênçãos do Espírito Santo?

  3. O motivo de nossa oração deve ser a Vontade de Deus, e não a nossa. Devemos aplicar-nos a esse dever divinamente estabelecido porque Ele o ordenou, e não devemos desejar senão aquilo que estiver em perfeita conformidade com Seu desígnio. Assim, nossa intenção não será tornar a Vontade Divina serva da nossa, mas transformar a vontade humana para que se harmonize inteiramente com a Divina. A razão dessa humilde submissão à Vontade de Deus é a perversidade da nossa, manchada por um amor-próprio cego. Guiados apenas por nós mesmos, erraríamos e tropeçaríamos; a Vontade de Deus, porém, essencialmente justa e santa, não pode enganar-se. Portanto, a Vontade de Deus deve ser a vontade dos homens, pois deixar de segui-la significa extraviar-se. Cuidemos, então, com a maior solicitude, para que todas as nossas súplicas sejam agradáveis a Deus; e, se houver dúvida sobre a concordância entre a vontade humana e a Divina, acompanhemos nossos pedidos de humilde submissão à Divina Providência. Se, porém, as coisas que pedimos forem agradáveis a Deus por sua própria natureza, como a graça e a virtude, supliquemo-las com o propósito de agradar e servir à Sua Divina Majestade, e não por qualquer outra consideração, por mais louvável que seja.

  4. Se desejamos que nossas orações sejam eficazes, nossas ações devem corresponder aos pedidos e devemos empregar grande energia para nos tornarmos dignos dos favores que suplicamos. A oração e a mortificação interior são inseparáveis; quem pede uma virtude particular sem realizar um esforço sério para praticá-la apenas tenta a Deus.

  5. Antes de pedirmos qualquer coisa a Deus, devemos agradecer-Lhe com profunda humildade os incontáveis benefícios que graciosamente nos concedeu. Digamos-Lhe: “Ó Senhor, que, depois de me criardes, pagastes misericordiosamente o preço de minha Redenção e me livrastes do furor de inúmeros inimigos, vinde agora em meu auxílio; esquecendo minha ingratidão passada, concedei-me o favor que agora Vos peço.”

Se, no momento em que procuramos adquirir determinada virtude, formos tentados pelo vício contrário, agradeçamos a Deus por nos conceder a oportunidade de praticar a virtude desejada e consideremos a ocasião como um favor.

  1. Uma vez que toda a força e eficácia da oração se atribuem somente à bondade de Deus, devemos recordar constantemente, ao concluir nossas súplicas, os méritos da vida e da Paixão de nosso Salvador e Sua promessa de ouvir bondosamente nossos pedidos, empregando uma destas ou outras frases semelhantes:

A. “Suplico-Vos, ó Senhor, por vossa infinita misericórdia, que atendais meu pedido.”

B. “Pelos méritos de vosso Filho, concedei-me este favor.”

C. “Recordai, ó Deus, vossas promessas e escutai minhas orações.”

Podemos igualmente recorrer à intercessão da Mãe Santíssima e dos outros Santos, pois eles muito podem junto de Deus, que Se compraz em honrá-los na proporção da honra que Lhe prestaram sobre a terra.

  1. Devemos perseverar na oração, pois Deus certamente não desprezará nossa humilde constância. Se as súplicas da viúva do Evangelho prevaleceram diante do juiz perverso, como poderiam as nossas ser ignoradas por Deus, que é infinitamente bom? Portanto, ainda que os favores não sejam concedidos imediatamente e pareçam até ser ignorados por Deus, não devemos perder a confiança em Sua bondade infinita nem abandonar a oração. Deus possui imenso poder e a vontade de conceder-nos as coisas que favorecem nosso bem definitivo. Se não houver falta de nossa parte, alcançaremos inevitavelmente aquilo que pedimos, algo melhor ou talvez ambas as coisas. Quanto mais, por nossa rudeza, nos julgarmos desprezados por Deus, tanto mais devemos desprezar a nós mesmos; mas, ao considerarmos nossa miséria, contemplemos também a Misericórdia Divina e, longe de diminuir nossa confiança n’Ele, aumentemo-la. Quanto mais firmes permanecermos nas situações acompanhadas de temor e desconfiança, tanto maior será nosso mérito.

Por fim, jamais deixemos de agradecer a Deus, bendizendo igualmente Sua sabedoria, Sua bondade e Sua caridade, quer Ele conceda, quer recuse nosso pedido. Aconteça o que acontecer, permaneçamos serenos, contentes e resignados à Divina Providência em todas as coisas.