Capítulo II

Da desconfiança de si mesmo

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A desconfiança de si mesmo é tão absolutamente necessária no combate espiritual que, sem essa virtude, não podemos esperar vencer sequer nossas paixões mais fracas e muito menos alcançar uma vitória completa. Esta importante verdade deve gravar-se profundamente em nosso coração, pois, embora nada sejamos por nós mesmos, somos demasiadamente inclinados a superestimar nossas capacidades e a concluir falsamente que temos alguma importância. Esse vício nasce da corrupção de nossa natureza; contudo, quanto mais natural é uma disposição, tanto mais difícil se torna reconhecê-la.

Deus, porém, a Quem nada está oculto, olha com horror para essa presunção, porque é Sua Vontade que estejamos convencidos de não possuir virtude nem graça alguma que não proceda somente d’Ele e de que, sem Ele, somos incapazes até mesmo de um único pensamento meritório. A desconfiança de nossas próprias forças é um dom do Céu, concedido por Deus àqueles que Ele ama; às vezes, é infundida por uma santa inspiração; outras vezes, por meio de severas aflições, de tentações quase insuperáveis ou de outros caminhos que desconhecemos. Ainda assim, Ele espera que façamos tudo quanto está ao nosso alcance para obtê-la; e certamente a obteremos se, com a graça de Deus, empregarmos seriamente os quatro meios seguintes.

Primeiro, devemos meditar sobre nossa própria fraqueza. Considera que, nada sendo por nós mesmos, não podemos, sem o auxílio divino, realizar o menor bem nem avançar sequer um pequeno passo em direção ao Céu.

Segundo, devemos pedir a Deus, com grande humildade e fervor, esta virtude eminente, que somente d’Ele pode vir. Comecemos por reconhecer não apenas que não a possuímos, mas também que somos inteiramente incapazes de adquiri-la por nós mesmos; depois, prostremo-nos aos pés de nosso Senhor e supliquemos-Lhe com insistência que nos conceda o que pedimos. Devemos fazê-lo com firme confiança de que seremos ouvidos, contanto que aguardemos pacientemente o efeito de nossa oração e nela perseveremos pelo tempo que aprouver à Divina Providência.

Terceiro, devemos acostumar-nos gradualmente a desconfiar das próprias forças, a temer as ilusões de nossa mente, a forte propensão de nossa natureza para o pecado e o número esmagador de inimigos que nos cercam. A astúcia, a experiência e a força deles superam as nossas, pois podem transformar-se em Anjos de luz e armar-nos emboscadas enquanto avançamos em direção ao Céu.

Quarto, sempre que cometermos uma falta, devemos examinar-nos para descobrir nossos pontos vulneráveis. Deus permite que caiamos somente para adquirirmos um conhecimento mais profundo de nós mesmos, aprendermos a desprezar-nos como criaturas miseráveis e desejarmos sinceramente ser desprezados pelos outros. Sem isso, não podemos esperar alcançar a desconfiança de nós mesmos, que se enraíza na humildade e no conhecimento da própria fraqueza.

Quem deseja aproximar-se da Verdade eterna e da fonte de toda luz deve conhecer-se profundamente. Não deve imitar a soberba daqueles que não chegam a outro conhecimento senão o que seus pecados lhes proporcionam e que só começam a abrir os olhos quando se veem mergulhados em alguma queda vergonhosa e imprevista. Isso acontece por permissão de Deus, para que reconheçam a própria fraqueza e, por uma triste experiência, aprendam a não confiar em suas forças. Raramente Deus aplica remédio tão severo contra a presunção, a menos que os outros meios tenham falhado.

Em suma, Ele permite que as pessoas caiam em pecados mais ou menos graves na proporção de sua soberba; e, se alguém fosse tão livre desse vício quanto a Santíssima Virgem, ouso dizer que jamais cairia. Portanto, sempre que cometeres uma falta, esforça-te imediatamente por sondar o íntimo de tua consciência; suplica com fervor a nosso Senhor que te ilumine, para que te vejas como és diante d’Ele e não tornes a presumir de tuas forças, pois, do contrário, cairás novamente nas mesmas faltas ou talvez em outras ainda maiores, para a ruína eterna de tua alma.