Capítulo LI

Meditação sobre os sofrimentos de Cristo e os sentimentos que devemos extrair de sua contemplação

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O que prescrevi anteriormente sobre o método de rezar e meditar a respeito dos sofrimentos de nosso Senhor e Salvador referia-se somente à súplica das coisas de que necessitamos; agora devemos passar aos sentimentos que convém despertar por meio de nossas considerações. Por exemplo, se escolheste como tema de meditação a Crucifixão e as circunstâncias que a acompanharam, podes deter-te nos pontos seguintes.

Considera primeiro a chegada de Jesus ao monte Calvário. Seus algozes O despojaram brutalmente, arrancando as vestes que estavam coladas à carne aberta de Seu Corpo dilacerado. Considera depois as novas feridas produzidas em Sua Cabeça Sagrada pela coroa de espinhos, retirada e novamente colocada por Seus carrascos bárbaros. Contempla-O em seguida pregado à Cruz com cravos atravessados na carne e na madeira pelos golpes de um grande martelo. Considera que Suas mãos, não alcançando os lugares preparados para elas, foram estendidas com tanta violência que todos os Seus ossos se desconjuntaram, permitindo ao observador contá-los um a um [Sl 21,18]. Pensa então no momento em que a Cruz foi levantada e no peso do Corpo de Cristo apoiado sobre os cravos, que rasgavam feridas abertas em Suas mãos e em Seus pés e Lhe causavam dores lancinantes.

Se, por meio dessas e de outras considerações semelhantes, desejas acender em teu coração as chamas do amor divino, procura alcançar pela meditação um conhecimento sublime da infinita bondade do Salvador, que por ti Se dignou padecer tanto. Quanto mais avançares no conhecimento de Seu amor por ti, tanto maior será teu amor e afeto por Ele. Convencido de Sua extraordinária caridade, conceberás naturalmente uma dor sincera por haver ofendido tantas vezes e tão gravemente Aquele que Se ofereceu em sacrifício por tuas culpas.

Passa então a praticar atos de esperança, considerando que esse grande Deus na Cruz não teve outro desígnio senão arrancar o pecado do mundo, libertar-te do demônio, expiar teus crimes, reconciliar-te com Seu Pai e proporcionar-te um recurso para todas as necessidades. Se, depois de contemplar Sua Paixão, considerares seus efeitos, tua tristeza se transformará em alegria. Observa que, pela morte de Cristo, os pecados da humanidade foram apagados, a ira do soberano Juiz foi aplacada, os poderes do inferno foram derrotados, a própria morte foi vencida e os lugares dos Anjos caídos foram preenchidos no Céu. A alegria nascida dessas reflexões aumentará quando pensares no júbilo com que a Santíssima Trindade, a Santíssima Virgem e a Igreja Militante e Triunfante receberam a feliz notícia da Redenção do gênero humano.

Se desejas experimentar uma dor viva por teus pecados, deixa que a meditação te convença de que Jesus Cristo padeceu tanto para inspirar-te um salutar desprezo de ti mesmo e ódio às tuas paixões desordenadas, especialmente às tuas maiores faltas, que naturalmente mais ofendem a Deus Todo-Poderoso.

Se desejas despertar sentimentos de admiração, basta considerares que nada é mais assombroso do que ver o Criador do universo, fonte da vida, massacrado por Suas próprias criaturas; o direito da Majestade Suprema como que aniquilado; a Justiça condenada; a Beleza desfigurada e coberta de imundície; o Predileto do Pai eterno transformado no objeto do ódio dos pecadores; a Luz inacessível subjugada pelos poderes das trevas; e a Glória e a Felicidade incriadas sepultadas sob a ignomínia e a miséria.

Para despertar em teu coração compaixão pelos sofrimentos de teu Salvador e Deus, além de Suas dores exteriores, considera o mais agudo de Seus padecimentos: Sua angústia interior. Se as primeiras dores te comovem, as segundas te atravessarão de tristeza. A Alma de Cristo contemplava então a Divindade com a mesma clareza com que agora a contempla no Céu. Sabia quanto Deus merece ser honrado e, amando-O infinitamente, desejava que todas as criaturas O amassem com toda a força de suas almas. Ao vê-Lo, portanto, tão horrivelmente desonrado em todo o mundo por crimes incontáveis e abomináveis, foi esmagada pela dor de que a Majestade Divina não fosse amada e servida por todos os homens. Como a grandeza do desejo da Alma de Cristo de que Seu Pai fosse amado ultrapassa toda imaginação, é inútil tentar compreender a profundidade de Seus sofrimentos interiores nas agonias da morte.

Além disso, como esse Divino Salvador amava o gênero humano em grau inefável, um amor tão ardente e terno deve ter-Lhe causado imensa dor pelos pecados que separariam os homens d’Ele. Sabia que ninguém poderia pecar mortalmente sem destruir a graça santificante, vínculo que o une a Ele como justo. Essa separação causava a Jesus maior angústia na alma do que Seus membros desconjuntados causavam ao Corpo, pois a alma, inteiramente espiritual e imensamente superior ao corpo, é capaz de sentir a dor com delicadeza muito maior. Entre todas as aflições de nosso bendito Salvador, a mais grave foi, sem dúvida, contemplar os condenados que, incapazes de arrependimento, haveriam inevitavelmente de permanecer afastados d’Ele por toda a eternidade.

Se a contemplação de tamanho sofrimento te move à compaixão por Jesus agonizante, medita ainda mais e descobrirás que Sua dor excessiva não foi causada somente por teus pecados. Seu Sangue Precioso foi derramado não apenas para purificar-te das faltas cometidas, mas também para preservar-te daquelas em que terias caído sem o auxílio do Céu. É certo que nunca te faltarão motivos para participar dos sofrimentos de Jesus Crucificado. Sabe também que a natureza humana nunca esteve nem estará sujeita a aflição alguma que Ele não tenha conhecido. Jesus sofreu injúrias, censuras, tentações, dores, perda dos bens e austeridades voluntárias mais intensamente do que aqueles que gemem sob tais males. Esse terno Salvador compreendia perfeitamente cada aflição da mente ou do corpo a que estamos sujeitos, até a menor dor ou dor de cabeça, e por isso certamente Se comoveu de grande compaixão por nós.

Quem, contudo, poderá exprimir o que Ele sentiu ao contemplar a aflição de Sua Santíssima Mãe? Ela participou de todas as dores e ultrajes que acompanharam Sua Paixão, com as mesmas disposições e pelos mesmos motivos. Embora os sofrimentos dela ficassem infinitamente abaixo dos de Cristo, foram dolorosos além de toda expressão. O conhecimento da agonia de Nossa Senhora redobrou as dores de Jesus e atravessou-Lhe ainda mais profundamente o Coração. Por isso, certa alma devota comparou o Coração de Jesus a uma fornalha ardente na qual Ele sofria voluntariamente as chamas abrasadoras do amor divino.

E, afinal, qual foi a causa de agonia tão inexprimível? Nada além de nossos pecados. Portanto, a maior compaixão e gratidão que podemos manifestar Àquele que tanto sofreu por nós consiste em sentir verdadeira dor pelas ofensas passadas por puro amor a Ele; detestar o pecado com todo o fervor da alma porque Lhe desagrada; e travar guerra incessante contra nossas más inclinações porque elas são Seus maiores inimigos. Assim, despojando-nos do homem velho e revestindo-nos do novo, adornamos a alma com a virtude, na qual unicamente consiste sua beleza.