Capítulo XXXV

Do meio mais proveitoso para adquirir a virtude e do modo como devemos aplicar-nos por algum tempo a uma virtude particular

38 de 71 seções · capítulo 35 de 66

Às advertências anteriores devo acrescentar que, para alcançar uma piedade sólida, são absolutamente indispensáveis uma coragem intrépida e uma vontade resoluta, pois encontraremos inúmeras dificuldades e contradições. É igualmente necessário amar de modo particular a virtude, amor que nasce da reflexão frequente de que ela agrada a Deus, é admirável em si mesma e possui grande importância para o homem. Além disso, toda a perfeição cristã começa e termina na virtude.

Será da maior importância resolver todas as manhãs obedecer rigorosamente, durante o dia inteiro, aos preceitos da virtude escolhida, examinando com frequência como essas resoluções foram postas em prática. Essa regra se dirige ao cultivo da virtude que constitui o objeto imediato de nossos esforços e da qual temos maior necessidade. A ela devem ser relacionadas todas as reflexões tiradas dos exemplos dos Santos e nossas meditações sobre a vida e a morte do Salvador, que nos prestarão serviço imenso nesse combate espiritual.

Habituemo-nos à prática das virtudes exteriores e interiores, para encontrarmos nelas a mesma facilidade e satisfação que sentimos ao obedecer às tendências de nossa natureza corrompida. Os atos mais contrários a essas tendências são os que mais contribuem para estabelecer em nossas almas o hábito da virtude.

Certas passagens da Sagrada Escritura, pronunciadas com atenção ou consideradas com reverência, possuem eficácia semelhante. Devemos, portanto, conhecer bem os textos correspondentes à virtude em questão e empregá-los frequentemente, sobretudo quando formos assaltados pela paixão predominante que lhe é oposta.

Aqueles que, por exemplo, procuram adquirir a mansidão e a paciência podem repetir estas ou outras passagens semelhantes:

“Suporta pacientemente a ira de Deus que cai sobre ti em castigo de teus pecados” [Br 4,25].

“A paciência do pobre não perecerá nem será privada de sua recompensa” [Sl 9,19].

“O homem paciente é melhor do que o valente; e aquele que domina o próprio espírito, melhor do que quem conquista cidades” [Pr 16,32].

“Por vossa paciência ganhareis vossas almas” [Lc 21,19].

“Corramos com paciência para o combate que nos está proposto” [Hb 12,1].

Também podemos empregar estas ou outras aspirações semelhantes: “Ó meu Deus, quando estarei armado da paciência como de um escudo contra as armas de meu inimigo? Quando Vos amarei de tal maneira que receba com alegria todas as aflições que Vos aprouver enviar-me? Ó Vida de minha alma, nunca começarei a viver unicamente para vossa glória, perfeitamente resignado diante de todos os sofrimentos? Como eu seria feliz se, na prova ardente da tribulação, me consumisse pelo desejo de ser inteiramente gasto em vosso serviço!”

Ofereçamos frequentemente semelhantes orações, segundo o sugerirem nossa devoção e nosso progresso na virtude. Elas se chamam jaculatórias porque, como dardos de fogo dirigidos ao Céu, elevam nosso coração à Bondade Divina quando são acompanhadas por duas qualidades que lhes servem de asas: a primeira é a convicção da alegria que Deus encontra ao ver-nos trabalhar para cultivar as virtudes; a segunda, um desejo sincero de sobressair em todas elas pelo único motivo de agradar-Lhe.