Capítulo XVI
O soldado de Cristo deve preparar-se desde cedo para a batalha
19 de 71 seções · capítulo 16 de 66
A primeira coisa a fazer quando despertares é abrir as janelas de tua alma. Considera-te no campo de batalha, diante do inimigo e sujeito a uma lei inexorável: combater ou morrer.
Imagina diante de ti o inimigo, isto é, aquele vício particular ou aquela paixão desordenada que procuras vencer, e pensa que esse adversário hediondo está prestes a subjugar-te. Ao mesmo tempo, contempla à tua direita Jesus Cristo, teu Chefe invencível, acompanhado pela Santíssima Virgem, por São José, por companhias inteiras de Anjos e Santos e, de modo particular, pelo glorioso Arcanjo São Miguel. À tua esquerda estão Lúcifer e suas tropas, preparados para sustentar a paixão ou o vício contra o qual combates e resolvidos a tudo fazer para causar tua derrota.
Imagina teu Anjo da Guarda exortando-te desta maneira: “Hoje deves combater para vencer teu inimigo e todos aqueles que procuram arruinar-te. Tem coragem, não temas nem sejas covarde. Cristo, teu Capitão, está aqui com todo o poder do Céu para te proteger dos inimigos e cuidar para que jamais te vençam, seja pela força, seja pela astúcia. Conserva tua posição e faz violência a ti mesmo, por mais doloroso que isso seja. Clama pelo auxílio de Jesus e Maria e de todos os Santos; se o fizeres, alcançarás a vitória.”
Não importa quão fraco sejas nem quão forte pareça o inimigo, seja pelo número, seja pelo poder. Não desanimes, pois o auxílio que recebes do Céu é mais poderoso do que tudo quanto o inferno possa enviar para destruir a graça de Deus em tua alma. Deus, Criador e Redentor, é onipotente e deseja tua salvação mais intensamente do que o demônio pode desejar tua ruína.
Combate, portanto, com coragem e não deixes de mortificar-te. A guerra contínua contra tuas inclinações desordenadas e teus hábitos viciosos alcançará a vitória, conquistará o Reino dos Céus e unirá tua alma a Deus para sempre.
Começa imediatamente a combater em nome do Senhor, armado da desconfiança de ti mesmo, da confiança em Deus, da oração e do uso correto das faculdades da alma. Com essas armas, ataca o inimigo, isto é, a paixão predominante que desejas vencer, seja por uma resistência corajosa, seja por atos repetidos da virtude contrária ou por qualquer outro meio que o Céu te conceda para expulsá-la de teu coração. Não descanses até que esteja vencida. Tua perseverança será recompensada pelo Supremo Juiz, que, juntamente com toda a Igreja Triunfante, contempla tua conduta.
É preciso repetir: não deves cansar-te desta guerra. Todos têm o dever de servir e agradar a Deus, e é impossível evitar esse combate. Quem foge se expõe a ser ferido e até destruído. Revoltar-se contra Deus e entregar-se com o mundo a uma vida de sensualidade não diminui as dificuldades, porque tanto o corpo quanto a alma sofrem gravemente quando se abandonam ao luxo e à ambição.
É muito cego aquele que não procura evitar os numerosos sofrimentos desta vida, seguidos de uma agonia sem fim na outra, e contudo foge de pequenas dificuldades que logo terminarão numa eternidade de felicidade e no gozo interminável de Deus.