Capítulo XXXVIII

Da necessidade de estimar todas as ocasiões de combater para adquirir as virtudes, especialmente aquelas que apresentam maiores dificuldades

41 de 71 seções · capítulo 38 de 66

Não devemos contentar-nos em receber passivamente as ocasiões de adquirir a virtude; ao contrário, devemos procurá-las ativamente, abraçá-las com prontidão quando as encontrarmos e encontrar alegria naquelas que trazem maior mortificação, pois são as mais proveitosas. Nada nos parecerá difícil, com o auxílio do Céu, se imprimirmos profundamente em nosso coração as considerações seguintes.

A primeira é que as ocasiões procuradas ativamente constituem os meios próprios, quando não necessários, para adquirir a virtude.

Por conseguinte, todas as vezes que pedimos a Deus uma virtude particular, pedimos simultaneamente os meios que Ele determinou para sua aquisição. De outro modo, nossa oração seria estéril e contraditória, e estaríamos tentando a Deus, que nunca concede a paciência senão por meio da tribulação, nem a humildade senão por meio da ignomínia.

O mesmo se pode dizer das demais virtudes, que são frutos das provações que Deus quer enviar-nos e que devemos estimar na proporção de sua severidade, pois a violência que fazemos a nós mesmos possui eficácia singular para formar na alma os hábitos virtuosos.

Tenhamos, portanto, o cuidado de mortificar a vontade, ainda que seja apenas reprimindo um olhar curioso ou uma palavra descuidada. Embora as grandes vitórias sejam mais honrosas, as pequenas são mais frequentes.

A segunda consideração, já mencionada, é que podemos tirar proveito de todas as coisas, pois todas se encontram sob a Providência de Deus. Na verdade, falando propriamente, não se pode dizer que fatos como os pecados dos homens aconteçam por vontade d’Aquele que abomina a iniquidade; entretanto, em certo sentido isso é verdadeiro, porque Aquele que tem poder para impedi-los permite que ocorram.

Quanto às nossas aflições, sejam causadas pela falta de um inimigo, sejam pela nossa, encontram-se, apesar disso, dentro dos desígnios de Deus. Por mais desagradável que seja sua causa imediata, Deus espera que as suportemos com paciência, seja porque constituem meios de nossa santificação, seja por outras razões que desconhecemos.

Se estamos convencidos, portanto, de que a perfeita conformidade com Sua santa Vontade envolve a aceitação paciente dos males que a malícia dos outros ou nossos próprios pecados atraem sobre nós, quão errados devem estar aqueles que, para disfarçar a impaciência, afirmam que um Deus infinitamente justo jamais pode estar relacionado com aquilo que procede de uma causa má.

É evidente que pretendem apenas conservar a tranquilidade pessoal e persuadir o mundo de que possuem o privilégio de rejeitar as cruzes que Deus Se compraz em enviar-lhes. Mas isso ainda não é tudo: mesmo que a situação fosse indiferente sob os demais aspectos, a alegria que Deus encontra ao ver-nos aceitar pacientemente um tratamento injusto, sobretudo da parte daqueles que têm obrigações para conosco, seria por si só razão suficiente para praticarmos essa virtude.

A primeira razão é que a soberba inata é reprimida mais eficazmente pelos maus-tratos recebidos dos outros do que por quaisquer mortificações voluntárias impostas por nós mesmos. A segunda é que, suportando pacientemente essas situações, conformamo-nos ao que Deus exige e contribuímos para Sua glória; harmonizamos nossa vontade com a Sua em circunstâncias nas quais Sua bondade e Seu poder se manifestam igualmente. Assim, de uma coisa tão vil como o pecado, recolhemos os excelentes frutos da virtude e da santidade.

Sabe, então, que tão logo Deus nos encontra resolvidos a alcançar uma virtude sólida, envia-nos provações da espécie mais severa. Convencidos de Seu imenso amor por nós e de Sua solicitude paternal por nosso progresso espiritual, devemos beber com gratidão até as últimas gotas do cálice que Ele Se digna oferecer-nos, confiantes de que seu proveito será proporcional à sua amargura.