Capítulo XXXII

Do último artifício do demônio, que transforma até a prática da virtude em ocasião de pecado

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O Maligno serve-se até da virtude para nos tentar ao pecado, enchendo-nos de estima exagerada e complacência por nós mesmos, até fazer-nos sucumbir à vanglória. Devemos, portanto, vigiar sem cessar, conscientes de nosso nada, de nossa condição pecadora e de nossa espantosa insuficiência, recordando sempre que nada merecemos senão a perdição eterna. Seja essa lembrança para nós como uma espada com a qual nos defendemos dos ataques insidiosos da presunção e da vaidade, e combatamos com o vigor de um homem que luta pela própria vida.

Se, contudo, desejamos um conhecimento mais perfeito de nós mesmos, distingamos aquilo que devemos à graça de Deus daquilo que merecemos por nossas próprias obras. Recordemos a benevolência de Deus, que nos concedeu o ser; a misericórdia de Deus, que nos sustenta; e o poder de Deus, que continuamente nos conserva. Assim, não há dúvida de que aquilo que verdadeiramente merecemos por nossas forças mal é digno de nossa própria estima e muito menos da estima dos outros, pois nossas glórias remontam ao Céu, enquanto nossos pecados remontam a nós mesmos.

Se calculássemos realmente a natureza, o número e a frequência de nossas ofensas, sem falar nas faltas que teríamos cometido se a graça de Deus não as houvesse impedido, descobriríamos que, tomadas em conjunto, nossas culpas são inumeráveis e que nossa malícia se iguala à dos demônios. Tais considerações devem fazer crescer diariamente em nós o reconhecimento de nossa baixeza e a gratidão que devemos à Bondade Divina.

Devemos também ter cautela para evitar a vanglória, apegando-nos estritamente à verdade ao examinarmos e julgarmos a nós mesmos. Embora tenhamos consciência de nossa miséria, se desejamos que o mundo nos contemple como Santos, merecemos o castigo dos criminosos.

Para que sejas fortalecido contra a vanglória e te tornes agradável Àquele que é a própria Humildade, não basta teres uma opinião modesta de ti mesmo e julgares que não és digno do bem, mas merecedor do mal. Deves também estar disposto a ser desprezado, ter repugnância por receber louvores e acolher de boa vontade o menosprezo, certificando-te, porém, de que tua verdadeira motivação seja a humildade, e não uma altivez obstinada. Com efeito, uma arrogância sutil pode disfarçar-se de coragem cristã, desprezando a sabedoria do mundo e seu juízo.

Se alguém demonstrar afeto por ti ou elogiar as qualidades que Deus te concedeu, recorda imediatamente a verdade e a justiça, dizendo em teu coração com toda a sinceridade: “Não permitais, ó Senhor, que eu procure roubar vossa glória, atribuindo a mim mesmo aquilo que devo inteiramente à vossa santa graça! Sejam vossas a honra e a glória; sejam minhas a vergonha e a confusão!”

Quanto àquele que te elogia, considera cuidadosamente seus motivos e pergunta a ti mesmo que perfeição ele pode discernir em ti. Somente Deus é bom, e apenas Suas obras são dignas de louvor. Por que o homem haveria de procurar repouso numa glória roubada?

Da mesma forma, se a lembrança de uma boa obra te adormecer numa complacência vã, recorda que foi a graça de Deus em ti que extraiu o bem de tua inutilidade. Somente Deus é o Autor; somente Ele merece o louvor.

Considera depois não apenas a realização objetiva da boa obra, mas a proporção entre a graça que recebeste para praticá-la e o resultado alcançado. Talvez, além das deficiências próprias dessa obra aparentemente boa, a falta de fervor e os defeitos de intenção e diligência tenham prejudicado ainda mais o ato. Em vez de te aqueceres no louvor de ti mesmo, deverias afligir-te por haveres empregado tão imperfeitamente uma graça tão grande.

Se comparasses tua ação com as obras dos Santos, ficarias envergonhado diante da diferença; e, se comparasses tuas ações com a sublime imolação no monte Calvário, elas se reduziriam à mais completa insignificância. A vida de Cristo foi uma cruz, o sacrifício contínuo de uma dignidade infinita diante das indignidades humanas e a oferenda do amor mais puro por aqueles que nada Lhe davam senão ódio.

Por fim, se elevares os olhos ao Céu e contemplares a Majestade de Deus, tuas obras tão pequenas devem inspirar-te mais temor do que soberba e fazer-te dizer no coração, com profunda humildade: “Senhor, tende piedade de mim, pecador.”

Não sejas inclinado a tornar públicos os favores recebidos de Deus, pois isso geralmente Lhe desagrada, como se pode ver pelo exemplo seguinte. Aparecendo certo dia a uma grande Santa sob a figura de uma criança, Cristo foi convidado a recitar a Ave-Maria e começou imediatamente; depois de dizer, porém, “Bendita sois Vós entre as mulheres”, mostrou-Se relutante em pronunciar o próprio louvor e, quando insistiram para que prosseguisse, desapareceu. A alma devota, repleta de consolação, guardou para sempre esse exemplo divino da importância da humildade.

Devemos também esforçar-nos continuamente por nos humilhar em todas as ações, que nada mais são do que manifestações de nosso nada diante do mundo. Nessa humildade se encontra o fundamento de incontáveis virtudes. Assim como Deus criou nossos primeiros pais do nada, continua a edificar nossa vida espiritual sobre o reconhecimento da verdade de que nada somos. Portanto, quanto mais profundamente nos humilhamos, tanto mais alto se levanta o edifício; e, na proporção em que descemos às profundezas da humildade, o soberano Arquiteto eleva a construção às alturas da santidade. Jamais poderemos insistir demasiadamente nessa busca da humilhação de nós mesmos. Ó ciência celeste, que agora nos alegra e depois nos glorificará! Ó luz admirável, que atravessa as trevas para iluminar nossas almas e elevar nossos corações a Deus! Ó joia preciosa, embora desconhecida, que resplandece por entre as sombras de nossos pecados!

Esse é um assunto inesgotável, que poderia ser desenvolvido sem fim. Quem deseja honrar a Majestade Divina deve livrar-se da estima por si mesmo e do desejo de ser estimado pelos outros. Humilha-te diante de todos e lança-te aos pés dos homens, se desejas sinceramente que Deus seja glorificado em ti e tu n’Ele. Para te unires a Ele, deves fugir de toda grandeza, pois Ele foge daqueles que se exaltam continuamente. Escolhe o último lugar, se queres que Ele desça do mais alto para abraçar-te com maior amor; escolhe ser esquecido pelos homens, a fim de receberes o amor de Deus.

Dá sempre as devidas graças Àquele que veio ser desprezado na terra para que fosses amado no Céu. Agradece também àqueles que te perseguem e se mostram hostis contra ti, tomando o cuidado de jamais te queixares deles.

Se, apesar de todas essas considerações, a malícia de Satanás, a falta de conhecimento de ti mesmo ou a propensão à arrogância te inflarem com uma suposta superioridade, humilha-te ainda mais, pois isso demonstra o pouco progresso que realmente fizeste e a dificuldade que ainda tens de vencer o hábito da soberba. Assim a humildade arrancará o ferrão da mordida, transformará o veneno em antídoto e o mal em seu próprio remédio.