Capítulo XIV

O que fazer quando a vontade parece vencida e incapaz de resistir aos apetites sensuais

17 de 71 seções · capítulo 14 de 66

Se alguma vez temeres que tua vontade sucumba diante do apetite inferior ou de outros inimigos que procuram vencê-la, e se perceberes que tua coragem e determinação começam a falhar, conserva tua posição e não abandones o campo. Enquanto não estiveres inteiramente vencido, deves considerar a vitória como tua.

Assim como a vontade não precisa do consentimento do apetite inferior para fazer sua escolha, também a liberdade da vontade permanece intacta apesar de toda violência que esse inimigo interior possa empregar. O Todo-Poderoso concedeu-nos domínio absoluto sobre ela; ainda que todos os sentidos, os espíritos malignos e o universo criado inteiro se unissem contra nós, não poderiam diminuir a liberdade da vontade para agir sempre, do modo e para o fim que ela escolher.

Se, por vezes, as tentações te oprimirem com tanta força que tua vontade, quase vencida, pareça já não possuir energia suficiente para resistir, não desanimes nem deponhas as armas. Defende-te e clama: “Jamais me renderei a ti! Não me submeterei a ti!” Procede como alguém que, lutando contra um inimigo obstinado e não conseguindo feri-lo com a ponta da espada, golpeia-o com o punho; observa como procura libertar-se, recuar para investir com maior força e matar o adversário com um único golpe decisivo.

Isso te ensina a retirar-te frequentemente para dentro de ti mesmo. Recorda teu nada e tua incapacidade de realizar qualquer coisa; então depositarás grande confiança no poder onipotente de Deus e, por Sua graça, poderás atacar e vencer as paixões que se levantam contra ti. É nesse momento que deves implorar: “Meu Senhor e meu Deus! Jesus! Maria! Não abandoneis vosso soldado! Não permitais que eu seja vencido por esta tentação!”

Sempre que o inimigo te conceder algum alívio, convoca o entendimento para reforçar a vontade e fortalece-a com motivos capazes de elevar sua coragem e dar-lhe nova vida para o combate.

Por exemplo, se fores injustamente acusado ou prejudicado de algum outro modo e, em desespero, te sentires tentado a perder toda a paciência, procura conter-te refletindo sobre os pontos seguintes.

  1. Considera se talvez não mereças o desgosto que estás sofrendo e se não o atraíste sobre ti mesmo. Se tens alguma culpa, é justo que suportes pacientemente a dor da ferida que tu mesmo ocasionaste.

  2. Se, porém, não fores culpado nesse caso, volta os olhos para alguma ofensa passada pela qual a Justiça Divina ainda não te tenha imposto castigo ou que não tenhas expiado suficientemente por uma penitência voluntária. Quando reconheceres que Deus, em Sua infinita misericórdia, decretou para ti somente uma pena leve e passageira nesta vida, em vez de um longo castigo no Purgatório ou até de uma pena eterna no inferno, aceita-a não apenas com resignação, mas com alegre ação de graças.

  3. Ainda que penses, sem razão, serem poucas as tuas faltas e muito numerosas as tuas penitências, recorda que o caminho do Céu é estreito e cheio de obstáculos.

  4. Mesmo que pudesses encontrar outro caminho, um amor ardente deveria impedir-te de considerá-lo, pois o Filho de Deus e, depois d’Ele, todos os Santos não seguiram outro senão a vereda espinhosa da Cruz.

  5. O que deves conservar presente nesta e em todas as outras ocasiões é a Vontade de Deus. Ele te ama com tanta ternura que Se compraz em cada ato heroico de virtude que praticas, correspondendo com fidelidade e coragem ao Seu imenso amor. Recorda também que, quanto mais injustamente sofreres e, por conseguinte, quanto mais dolorosa for tua aflição, maior será teu mérito aos olhos de Deus, pois, no meio do sofrimento, adoras Seus juízos e te submetes voluntariamente à Sua Divina Providência, que extrai o bem do maior mal e faz a malícia de nossos inimigos servir à nossa felicidade eterna.